Fé que move o cinema

A bençoada por números milionários, a onda dos filmes de cunho espiritualista acaba de ganhar uma nova plataforma de apreciação e difusão: o Festival de Cinema Transcendental, cuja primeira edição se realiza entre os dias 24 e 27 de março, em Brasília, e nos dias 28 e 31 do mesmo mês, em Fortaleza. A mais específica das novas maratonas do já gordo calendário cinematográfico brasileiro – há uma outra a ser inaugurada em julho, voltada para os filmes de autor – ampara-se na extraordinária bilheteria de títulos recentes do gênero, como Nosso lar , de Wagner de Assis, assistido por 4 milhões de brasileiros, e Chico Xavier , de Daniel Filho, visto por cerca de 3,4 milhões.

– Filmes similares já são produzidos em Hollywood há vários anos. No Brasil, esta produção encontrou eco por causa da receptividade do povo a temas ligados a religiosidade, paranormalidade e a fatos que a ciência não pode explicar. Títulos como Chico Xavier e Aparecida – O milagre encon tram espaço na devoção e na crença do brasileiro – explica Lucas de Pádua, coordenador geral do festival. – Aqui, o gênero cresceu dentro de um movimento artístico e cultural que tem como objetivo aliar técnicas a conceitos, ou seja, a busca de uma arte mais voltada para a solidariedade e a religiosidade.

Aberto a produções nacionais ou estrangeiras que explorem o campo da espiritualidade, o festival já confirmou a exibição do documentário O contestado – Restos mortais , do catarinense Sylvio Back, no qual médiuns e historiadores resgatam a memória de um dos maiores genocídios da história do país, e o drama Ricky , do diretor francês François Ozon, sobre um bebê que consegue voar. A abertura do Festival de Cinema Transcendental servirá como pré-estreia de luxo para o esperado As mães de Chico Xavier , de Glau ber Filho e Halder Gomes, agendado para chegar aos cinemas em 1º de abril. Filho é codiretor de Bezerra de Menezes – O diário de um espírito (2008), visto por mais de meio milhão de espectadores, marco zero do fenômeno no país.

– É o melhor lugar para iniciar o circuito de pré-lançamentos de As mães de Chico Xavier – atesta Luís Eduardo Girão, da produtora Estação da Luz, organizadora do festival e coprodutora dos longa-metragens Chico Xavier e Bezerra de Menezes . – O festival é pioneiro, está sendo maturado há tempos, desde a repercussão inédita de Bezerra de Menezes , por um grupo de idealistas, no qual me incluo, que acredita que o gênero transcendental veio para ficar. Não é apenas uma nova onda do cinema brasileiro. Há décadas, as bienais de livros vêm mostrando a força da temática, estabelecendo recordes de vendas para autores como Zíbia Gasparetto, Chico Xavier e Divaldo Franco, entre tantos outros.