Barrados no baile

Aumento de 62% dos deputados ainda revolta Os políticos governam só para eles mesmos, a ponto de tomarem atitudes ridículas Deralvino Pinto Além dos casos individuais de corrupção, boa parte das pessoas ouvidas pelo JB nas ruas do Centro ainda não conseguia engolir o aumento de 62% que os deputados estaduais deram a si próprios, no apagar da última legislatura.

– Trabalho na área de saúde e não tenho aumento há 16 anos – lembra o auxiliar administrativo Deralvino Pinto. – A verdade é que, hoje, os políticos governam apenas para eles mesmos.

As atitudes que eles tomam chegam a ser esdrúxulas.

Classificada pelo governador Sérgio Cabral como uma “festa da pluralidade e da democracia”, a posse dos deputados na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) parecia mais um afago ao ego dos políticos, acredita o funcionário público Osmar Francisco.

– Eles sabem que o povo também gosta de toda essa pompa. Essas comemorações só fazem com que eles apareçam mais na mídia.

A desilusão com a política não é só do carioca, mas de todos os brasileiros. O problema é que a descrença anda de mãos dadas com a irresponsabilidade. Segundo pesquisa do Instituto Sensus, um entre cada quatro eleitores não se lembrava mais em quem votou para deputado estadual pouco mais de um mês após as eleições.

– Acho isso uma vergonha – opina o diagramador Eliasar dos Santos. – Já é difícil escolher um candidato no qual você possa confiar para dar o seu voto. Se as pessoas ainda esquecem em quem votaram, não tem como cobrar nada.

Deslocado entre políticos em trajes de gala e jornalistas que pegavam suas credenciais, o estudante Gabriel Saldanha aguentava o calor para protestar contra o descaso do poder público em relação às chuvas que afetaram a Região Serrana. Apesar de ter a mesma desilusão política, ele não pensou duas vezes antes de perder um dia das férias para dar voz a sua indignação.

– A certeza que eu tenho é que a maioria desses políticos vai trabalhar para ajudar as mesmas empresas que financiaram suas campanhas – diz Gabriel, de 18 anos. – O que me traz aqui é saber que a corrupção não é algo natural, é fruto do nosso descaso.