Pagar pedágio mas voltar a pé

A volta de Lula em 2014 começou a ficar fora do alcance: a eleição é o gatilho da reeleição AO SE COMPLETAR o primeiro mês com o ex-presidente Lula à espera de alguma coisa que não sabe se ocorrerá, mas que o persegue dia e noite, começa a ficar mais claro (para ele) que os fatos mantêm curso independente das expectativas, com vida própria e riscos exclusivos.

Não cabe reclamação.

Não serão poucos os que já procuram impressão digital em indícios que precedem fatos e complicam personagens.

Estão à espreita os azares das coincidências imprevisíveis na sequência que não se completará tão cedo. O ex-presidente já deve saber que os acontecimentos não esperam por ele, nem se dispõem a estar à disposição dele daqui a quatro anos. Os precedentes históricos são relativos por um lado e absolutos pelo outro. A diferença entre um ex-presidente e um presidente começa antes de se consumar a passagem do poder. E não termina enquanto um dos dois não desiste.

O desequilíbrio emocional que sacudiu a impaciência de Lula na campanha eleitoral o impediu de entender que sua eleição não foi o que lhe possa ter parecido. O passado lega as consequências mas não se explica por intermédio do presente. Nem autoriza a fazer mais de uma aposta contra o futuro. O ex-presidente não relaciona a própria eleição, em dose dupla, com tudo que a precedeu, pelo temor de se deparar com o elo perdido no caminho sem fim. Nada a ver com o que tenha feito e tudo sem considerar a democracia.

A volta de Lula em 2014 (não faz questão de data) começou a ficar fora do alcance: a eleição, e não o destino, é o gatilho da reeleição, com as bênçãos do presidencialismo. Não lhe escaparam, ao montar a equação, tanto as condições de Dilma Rousseff (antes da garantia médica) quanto as próprias. As hipóteses correlatas e as pesquisas o perturbaram. Sobretudo as diferenças entre o presidente e a candidata, principalmente depois de eleita. Não deu outra. As diferenças, a começar das pequenas, falaram com mais firmeza.

Versões já consideram sintomas de depressão e riscos próprios de pré-candidatos. Da extroversão à depressão a distância é curta. Um mês incompleto, e já é outro o estilo do novo governo. O dele, não. Antes de haver reeleição, o segundo mandato estava na ordem das emergências, que eram raras.

A reeleição, como consequência inevitável do mandato, tanto facilita quanto dificulta.

Não por esta razão, Getulio Vargas elegeu-se presidente, pelo voto direto, cinco anos depois de ter sido deposto como ditador (durante 15 anos). Voltou pelo voto direto ao poder que conhecera por dentro de 1930 a 1945, com um saldo discutível a seu tempo, mas que a História encampou.

A volta – e pelo voto direto – terminaria com o suicídio do presidente, mas a morte dramática promoveu a revisão política imediata, imobilizou a oposição e situou Getúlio Vargas acima das avaliações efêmeras de adversários e contemporâneos. A eleição de JK para o mandato seguinte ao de Vargas transcorreu sob a expectativa do golpe militar e terminou arrematado pelo eufemismo conhecido como contragolpe, que garantiu a vontade das urnas e a posse de Kubitschek, a quem se cobrava mais do que a maioria simples de voto, que a Constituição estabelecera.

Juscelino Kubitschek também saiu para voltar mais adiante (não havia reeleição) e foi atropelado pelas consequências da renúncia do seu sucessor. E o sobrenatural disse a que veio: quando chegou a oportunidade, a eleição direta tinha ido embora. A volta ao poder leva perigo, mesmo com a quarentena de um mandato separando a ida e a volta. Quem não sabe, paga pedágio e volta a pé.

Quem se der ao esporte cívico de levantar números do que ficou dos 15 anos de Vargas, e os comparar com os 16 de Fernando Henrique e Luiz Inácio lula da Silva somados, entenderá socraticamente que a história não aprende conosco, e sim nós é que temos de aprender com ela.