Morte lenta e gradual

A escolha deste texto como ponto inicial do trabalho não foi ocasional.

– Escolhi esta peça porque os personagens estão definhando num abrigo, num tempo que parece apocalíptico – justifica Tatiana, que nunca viu Fim de partida e ncenada.

O texto já foi montado por Paulo Autran, sob a direção de Carlos Kroeber, em 1960, e Sergio Britto, no início da década de 70, sob a condução de Amir Haddad, e rendeu montagens conduzidas por diretores como Luiz Paulo Vasconcellos e Pedro Brício. Mesmo sem a referência das encenações, Tatiana Blass seguiu à risca uma das principais recomendações em se tratando de Beckett: a fidelidade às indicações do próprio autor.

– A exposição conta com figurinos e objetos de cena, tudo conforme descrito no texto – garante, referindo-se à dramaturgia de Beckett, um dos principais autores do teatro do absurdo.

Para completar, o público encontrará duas pinturas que dialogam com Fim de Partida, ainda que não de maneira direta.

– São pinturas que trazem espaços amplos com pessoas muito pequenas – descreve. – Fica a impressão de que estão boiando como sobreviventes e sendo engolidas pelo espaço.

Tatiana Blass assume que, até então, não tinha tanta ligação com o teatro.

– O teatro é uma construção ficcional, e o espectador percebe isso – resume. – Mesmo assim, talvez cada um possa se envolver com o que assiste a ponto de esquecer a sua própria condição de espectador.

A artista, de certa maneira, abordou essa questão anteriormente.

– No vídeo O engano é a sorte dos contentes , falo sobre a possibilidade de se deixar iludir, envolver pela mágica, pela ilusão – explica.

Projetos experimentais, como o de Fim de Partida, passam a abrigar a Sala A Contemporânea, do CCBB, destinada a dar visibilidade a trabalhos de artistas da nova geração, a exemplo das mostras, já exibidas, dedicadas a Mariana Manhães, Matheus Rocha Pitta e Ana Holck. Depois da instalação de Tatiana Blass estão programadas exposições de Thiago Rocha Pitta e Marilá Dardot. Todas serão reunidas num catálogo bilíngue com textos críticos de curadores convidados pelos expositores, imagens das obras e biografia dos artistas.