Quedas e operações em Nova Friburgo

Quem nasceu e sempre morou em capitais não tem noção do sossego de uma cidade do interior NEM SÓ DE BOAS lembran ças são tecidas as minhas memórias de Nova Friburgo, que não me saem da cabeça, como uma obsessão teimosa. Mistura-se com meia dúzia de episódios em que a minha vida esteve por um fio.

A mais comentada pela família não foi a mais grave. Mas tem o seu charme. Vamos lá: nas minhas caminhadas pelo Jardim Botânico, que é o parque mais belo do Rio e que continuo a frequentar, senti uma fisgada no coração, que soou com o alarme de um infarto. Não falei nada com ninguém. No dia seguinte, viajamos para o nosso sítio em Muri, distrito de Nova Friburgo. Tinha uma camionete estacionada na garagem. Sentei no banco do motorista e esperei que a Regina e a Rosália, nossa empregada há 30 anos, arrumassem as malas. Na cuca rodopiavam os palpites. O que é que eu faria num sábado no Rio com uma suspeita de infarto? Em Friburgo teria o Hospital São Lucas e o médico de absoluta confiança, doutor Gustavo Ventura Couto.

Uma excelente viagem no tempo em que a estrada, com trechos sem asfalto, não tinha como hoje um poste em cada quilômetro para a indústria da multa que hoje campeia com o descaro de profissionais da tunga legalizada.

Só em Muri, avisei a Regina que tinha um encontro com a então prefeita, que nunca tinha visto, e que talvez demorasse. E fui para o hospital. Não pude ser operado no mesmo dia, mas na segunda-feira. E ainda guardo a foto na primeira página de A Voz da Serra, principal jornal friburguense em que colaboro há três décadas, e na qual estou no quarto do hospital, com o doutor Gustavo Vieira Couto, ao lado.

Não foi o pior acidente. Bati meu recorde com a queda, de costas e de cabeça para baixo, na escada de madeira do térreo para o primeiro andar e parei com sangue escorrendo de um esguicho no cocuruto. Suspeita de fratura de crânio, internamento em hospital e dezenas de radiografias. E a cuca empacotada por rolos de gaze. Estes foram os mais espetaculares. No mais, muitos tombos a exigir imobilização de pernas e braços e pontos na cabeça.

Uma batida com o carro numa moto, no único e lamentável desastre da minha crônica de motorista. Não tenho carro nem renovei a carteira de motorista com 87 anos. O táxi no Rio está barato e fácil de encontrar. Do nosso apartamento, na Gávea, por telefone temos um táxi na porta em minutos.

Mas são muitas as lembranças e as amizades em Nova Friburgo. A cidade não é tão grande que as pessoas não se encontrem na rua, nos restaurantes, nas lojas, no cinema. E é sempre um espalhafato a marca da amizade no i n t e r i o r.

Quando voltarei a Muri para a nossa casa de dois andares, com um tanque metido a piscina de 12 metros em que é preciso ir e voltar até a tontura, de lá para cá, contando até mil metros? Certamente, assim que puder.

Acho que quem nasceu e sempre morou em capitais e cidades grandes não chega a ter noção precisa da sensação de tranquilidade, do sossego de uma cidade do interior, mesmo as sofisticadas como Petrópolis, Teresópolis e a grande maioria das ca pitais estaduais.

De muitas, como São Paulo, Belo Horizonte, Rio, o blefe de Brasília, a capital que Juscelino Kubitschek construiu e destruiu ao inaugurá-la antes de estar pronta, um canteiro de obras na imensidão do cerrado, com a praga das mordomias, vantagens e subsídios parlamentares que se multiplicam na velocidade da decadência do Congresso, contaminando o Senado e a Câmara para ver quem ganha mais em subsídios, horas extras e mil truques para o avanço do tesouro da Viúva.

Meu falecido pai, Merolino Corrêa, escalou todos os degraus da magistratura de Minas. E eu, quando estudante, costumava passar parte das férias nas cidades em que ele morava. De muitas, como Palmas, Araguari, Juiz de Fora, depois Belo Horizonte, curto as saudades que regam a vida.