o passado que não queremos ver

Governo negou ajuda a dez mil crianças órfãs A historiadora explica que o fluxo migratório dos judeus era visto como uma ameaça à composição da “raça brasileira” e também à segurança nacional.

O perigo morava no fato de o judeu ser associado ao comunismo, ao parasitismo e à ideia de raça inferior. Em seu livro, Maria Luiza demonstra que, de fato, muitos desses imigrantes tinham posturas políticas liberais e que, entre 1940 e 1945, fortaleceram no Brasil os movimentos antifascistas.

Heróis invisíveis Segundo a historiadora, uma minoria de diplomatas se mostrou sensibilizada com a situação dos refugiados, e raros foram os que se ofereceram para ajudar. Entre os diplomatas brasileiros que assumiram uma postura humanitária, ela cita Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França de 1922 a 1944, e que concedeu cerca de 500 vistos, desobedecendo às imposições antissemitas do governo Vargas, expressas através das circulares secretas. Por suas ações salvacionistas, Souza Dantas é considerado pelo Instituto Yad Vashem, em Israel, como um dos personagens “Justos entre as Nações”.

Outro exemplo é o diplomata Aracy Moebius de Carvalho, que ajudou a salvar centenas de refugiados judeus favorecendo a emissão de vistos pelo Consulado Geral do Brasil de Hamburgo, onde trabalhava ao lado do diplomata e escritor Guimarães Rosa, então cônsul-geral.

Pós-guer ra Mesmo no pós-guerra, a emissão de circulares secretas seguiu. Segundo a autora, em 1947, durante o período de criação da Organização das Nações Unidas (ONU), Oswaldo Aranha, ex-ministro das Relações Exteriores na Era Vargas, produziu um relatório, atendendo ao pedido do ministro Raul Fernandes, então chanceler do presidente Dutra.

Neste documento, Aranha avalia alguns dos assuntos que seriam debatidos na primeira reunião da ONU: a discussão sobre genocídio, instigada pelas imagens da catástrofe sobre o Holocausto; o controle do uso de armas atômicas, pensando-se no que ocorrera em Hiroshima e Nagasaki, no Japão; e, por fim, a divisão do território palestino para a criação do Estado de Israel.

– No final do relatório, Oswal do Aranha apontava que, se realmente fosse votada a partilha da Palestina, o Brasil poderia ficar tranquilo, pois os judeus teriam, a partir de então, um território próprio específico, e o país não precisaria mais se preocupar em recebê-los – acrescenta Maria Luiza.

Um ponto marcante do livro versa sobre o pedido do Comitê Internacional para Refugiados Políticos, para que dezenas de países ajudassem a salvar cerca de 10 mil crianças judias órfãs, retirando-as da França e da Hungria ocupadas. Segundo a professora, um conjunto de documentos pesquisados junto ao Itamaraty revela a morosidade e a insensibilidade do governo brasileiro em assumir qualquer tipo de responsabilidade sobre a situação que exigia rápidas ações humanitárias.

– O governo de Vargas impôs condições para aceitar 500 crianças – diz a autora. – Exigia, dentre outras coisas, que elas fossem educadas por pais católicos, anulando sua identidade judaica; não poderiam ter contato com a família de origem e não deveriam ter mais de 10 anos de idade.