O clubinho

A cada legislatura, eles continuam excelências de um clube com bônus financeiros e judiciais C om o fim dessa legislatura, dia 31 de janeiro, vai para o lixo a Proposta de Emenda Constitucional do ex-deputado federal Flávio Dino (PCdoB-MA) que impedia suplentes dos parlamentares de assumirem, com bônus, no recesso. A farra continuará, até que um outro corajoso político reapresente a proposta em outro texto.

São raros, mas existem, os políticos que dão as caras a tapa – em muitos casos, literalmente – para apresentar proposições contra as benesses de seus próprios pares. São ridicularizados nos burburinhos dos corredores, apesar de receberem tapas nas costas quando estão sob os holofotes ou no salão verde, a antessala do poder, ou no próprio plenário. Os políticos sabem que a convivência é hipócrita, em muitos momentos, o preço que se paga no jogo do poder.

Outro ex-federal que não se reelegeu, Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), foi voto vencido de dois anos para cá. Apresentou projeto que extirpava do vocabulário do poder e da carteira do eleito o foro privilegiado para crimes comuns – ou grandes.

O projeto passou nas comissões mais importantes, inclusive na CCJ, apenas para fazer figuração aos olhos populares ansiosos por justiça comum – a justiça comum a todos, nenhum deputado ou senador é um ser metafísico. Parou aí. Foi apenas uma jogada dos que aprovaram nas comissões.

Itagiba e um grupo de depu tados tentaram emplacar o texto em votação no plenário, e por dois momentos bateu na trave. Saiu da pauta para dar prioridade a outros. O foro privilegiado continua, e o texto que o derrubava foi literalmente para a gaveta – tal como o projeto de Flávio Dino.

Raros também são os partidos que votam unidos pela éti ca e movidos pela sensatez. O PSOL se diferencia por isso.

Foi a única legenda – embora tivesse apenas três deputados na ocasião – que votou contra o reajuste de 61% nos salários dos deputados e senadores. À frente do grupinho, Chico Alencar (RJ), um professor de história e frasista político.

Quando a sociedade se recompunha, mas sem esquecer, do horror do corporativismo desse poder, surgem notícias seguidas de ex-governadores com suas pensões vitalícias, inclusive aqueles que administraram canetas por poucos dias.

Casos de fracasso contra o corporativismo das benesses políticas, como os supracitados, reforçam o sentimento popular de revolta e distancia mais ainda, infelizmente, o cidadão do exercício do debate tão essencial na democracia. O que se vê, a cada legislatura, é que os mandatários continuam excelências à parte na sociedade, num clube brasiliense com bônus financeiros e judiciais.