Álbum de família

Há outras formas de expressar minhas posições políticas. Já disse o poeta palestino Mahmoud Dawish: ‘Não há nada mais revolucionário do que escrever sobre o amor’ Marjane Satrapi Marjane Satrapi senta em uma das mesas do restaurante do hotel Mamounia, o mais famoso de Marrakech, onde Hitchcock rodou algumas sequências de O homem que sabia demais (1956), e põe-se a fumar e falar animadamente sobre Frango com ameixas , adaptação de um dos seus livros, lançado no Brasil ano passado pela Companhia das Letras. É fácil de entender o entusiasmo da escritora e cineasta iraniana, codiretora (com Vincent Paronnaud) do premiado desenho animado Persépolis (vencedor do prêmio do júri do Festival de Cannes de 2007), inspirado no livro ilustrado homônimo no qual a autora descreve a experiência de crescer no Irã durante o regime dos aiatolás: – Passei anos tentando levar esse livro para o cinema, mas foi muito difícil convencer qualquer investidor, porque queria fazê-lo com atores de carne e osso e filmá-lo em estúdio. Com a repercussão de Persépolis e o passado de escritora de livros infantis, todo mundo esperava que eu continuasse a fazer filmes como aquele, não entendiam meu interesse por uma história adulta, com um elenco de verdade – explicou Marjane ao JB , entre baforadas, durante o Festival de Marrakech, onde funcionou como jurada da competição oficial.

A sorte da escritora é que ela é tão obstinada quanto tagarela. Depois de enfrentar vários executivos de sobrancelhas levantadas de surpresa e incredulidade, Marjane conseguiu apoio da produtora francesa Celluloid Dreams, arregimentou elenco internacional que inclui nomes como a italiana Isabella Rossellini, a portuguesa Maria de Medeiros e os franceses Mathieu Amalric e Chiara Mastroianni e, com 12 milhões de euros de orçamento, reconstituiu a capital iraniana nos históricos estúdios Babelsberg, em Berlim, durante o último verão europeu.

Ambientado na Teerã dos anos 50, Frango com ameixas é uma história de amor alimentada em memórias de família da escritora. É, desde já, um forte candidato a uma das vagas do próximo Festival de Cannes, em maio, de onde, quatro anos atrás, o nome de Marjane ganhou o mundo.

Também codirigido por Paronnaud, o novo filme promete miminizar o peso político sobre os ombros de Marjane, atribuído em virtude de suas orientações agnósticas e comunistas.

– Política nunca foi o meu forte – avisou a artista de 41 anos. – Persépolis foi considerado uma obra política sem nunca ter tido essa intenção.

No livro e no filme, apenas descrevia a situação em que vivi e as razões que me levaram a deixar o Irã. Há outras formas de manifestar minhas posições ideológicas, com histórias como a de Frango com ameixas . Como disse certa vez o poeta palestino Mahmoud Dawish, “não há nada mais revolucionário do que escrever sobre o amor”.

Mas houve um tempo em que a política lhe pareceu o caminho mais apropriado para lutar contra as injustiças cometidas em seu país. A pequena Marjane cresceu ouvindo música punk, admiran.