A esquerda do ORIENTE

Editores querem lucro e independência O jornal tem muitas falhas comuns à imprensa árabe em geral: dependência exagerada de fontes únicas e páginas de notícias que frequentemente mostram uma mistura solta de fatos, rumores e opiniões.

Mesmo assim, a publicação ainda está livre das manchetes bajuladoras tão comuns pelo Oriente Médio. O Líbano há muito tempo possui a mídia mais autônoma da região, mas os meios muitas vezes são veículos para seus donos, geralmente políticos ou empresários com interesses específicos.

O Al Akhbar queria se libertar dessa fórmula. Seu fundador, o jornalista de esquerda Joseph Samaha, encontrou um banqueiro de Londres para financiar o empreendimento em 2006, embora prometesse não interferir no conteúdo editorial. Samaha vislumbrava um jornal com forte comprometimento político, mas sem qualquer ligação com nenhum partido em especial.

– Vamos mostrar que podemos fazer um jornal lucrativo sem nos curvarmos a governo algum – disse Hassan Khalil, o banqueiro, que hoje é o principal dono do jornal.

A tiragem do Al Akhbar é baixa, cerca de 10 mil a 15 mil exemplares, embora seja comparável a circulações de outros jornais libaneses. Mas o site do Al Akhbar é, de longe, mais popular que o de qualquer jornal do Líbano. Os editores ainda estão planejando uma versão em inglês, que deverá ser lançada ainda no início de 2011.

Linha editorial Muitos críticos afirmam que a liberdade editorial é muito restrita no país. Alguns repórteres que ousaram desobedecer as regras chegaram a ser mortos, como foi o caso de Samir Kassir e Gebran Tueni, críticos à Síria e ao Hezbollah que trabalharam para o jornal “An Nahar”. O diário é mais antigo e pró-Estados Unidos.

No entanto, existe uma energia vigorosa e uma convicção no Al Akhbar que falta em muitos outros jornais. Grande parte dos funcionários está na casa dos 20 ou 30 anos, e eles parecem encarar a redação como uma família alternativa.

Assim como muitos outros editores, Omar Nashabe, do caderno de Justiça, está comple tamente familiarizado com a cultura americana. Ele é responsável por algumas das colunas mais socialmente liberais, e fala com empolgação sobre a necessidade de novas leis para defender trabalhadores estrangeiros e os direitos sexuais das mulheres. Nashabe tenta se afastar de cartas e telefonemas furiosos que recebe de conservadores sociais, inclusive de alguns do Hezbollah.

Porém, ninguém fica constrangido pelo apoio veemente do jornal à resistência, como são conhecidas as forças armadas do Hezbollah. Um retrato de Imad Mughniyeh, o comandante do Hezbollah que foi assassinado em 2008, está pendurado na parede do escritório de al-Amine, presidente do comitê diretor.

– É o nosso Che Guevara – diz al-Amine, enquanto conduz um visitante ao seu escritório e exibe, orgulhosamente, o retrato. Depois que Mughniyeh foi morto em Damasco, na Síria, o Al Akhbar publicou um furo: uma entrevista com Mughniyeh, feita meses antes e escrita por al-Amine, que era seu amigo pessoal.