Sem pauta - Correspondência

Você nunca falou sobre seus amores, mas Gabriel sempre dizia que você era um tremendo conquistador “H oje, bem de manhãzinha, me lembrei da última vez que você esteve na fazenda, poucos dias antes da morte de Gabriel. Você e ele se haviam dado bem, disputando uma corrida, que você perdeu, e é natural, porque, como nos disse, havia muitos anos que não montava, desde que foi aspirante do CPOR. Gabriel, não, era tão acostumado com os cavalos, e explicava que a mãe dele, quando estava grávida, ia de quinze em quinze dias à cidade, para ver a parteira, que acompanhava, melhor do que qualquer médico, o andamento das mulheres prenhas. Assim, antes de nascer, já se entendia com os animais de sela. De menino, andava montando uns jumentinhos amansados, até que, já com dez anos, passou a montar em pelo. Quando vinha de férias, segundo me contaram seus irmãos, ele selava um dos cavalos pela manhã, vinha almoçar, descansava um pouco e voltava a montar. Revezava os animais, porque vencia os morros e atravessava os córregos sempre a galope, e era preciso poupar as montarias.

“Vocês se davam muito bem, desde o colégio, e isso me perturbou muito, porque, logo que o conheci, vi que o mundo só começou a existir naquele momento. Seus olhos doeram nos meus, é o que posso dizer; sua boca me anunciava fontes de água limpa e serena; seus braços, que não eram fortes, pareciam feitos para abraçar-me e eu sentia os meus seios junto a seu peito. Se você e Gabriel não se dessem tão bem, para mim seria mais fácil. Entendi logo que você se continha, que não iria, nunca, trair o amigo. E como eu o ouvia, você se lembra? Você passava os serões contando histórias de terras distantes, de pessoas diferentes, e sorria – como sorria! – e eu esquecia meus sogros, minhas duas cunhadas e seus maridos, esquecia Gabriel, convencida de que você só falava para mim, e para mais ninguém. “Você veio trabalhar na cidade mais perto, cuidando da construção do hospital, e isso deu o pretexto para que fosse sempre à fazenda, até aquela última vez.

Com a morte de Gabriel, não quis mais aparecer. Nem mesmo apareceu para o enterro, e soubemos que, naqueles dias, você estava na capital. Gabriel morreu de repente, ninguém esperava, e – como eu o amava e o respeitava – mantive o luto, assim como disfarcei bastante que você mexia com meu coração e com os meus hormônios enquanto ele estava vivo. Mas sei que você percebia o meu embaraço, assim como eu percebia o seu. Era como se meu coração falasse com o seu, e o seu respondesse, indiferentes ao que se passava em volta de nós. Você nunca falou sobre seus amores, mas Gabriel sempre brincava, dizendo que você, pelo que ele sabia, era um tremendo conquistador. Fazia mal Gabriel: essas referências excitavam a minha curiosidade de fêmea, e eu sentia ciúmes – ciúmes que nunca senti de Gabriel.

“Agora, quase dois anos depois, acho que podemos nos encontrar. Não tenho mais compromissos. Voltei para a casa de meus pais, vejo meus sogros muito raramente, e mais raramente ainda, meus cunhados. Nossa convivência era imposta pelo casamento. Como não tive filhos, não há nem mesmo laços de sangue. Seria bom que nos víssemos, talvez em São Paulo, ou no Rio, e isso seria como se nos encontrássemos pela primeira vez.

Mando meu endereço, e espero que tenha acertado o seu. Estou esperando a resposta”.

Marcos leu rapidamente a carta, antes que a mulher, que se preparava para saírem juntos – ele para o escritório, ela para sua loja de roupas – abrisse a porta do quarto. Colocou de novo as páginas de papel de linho no envelope, dobrou-o e o guardou no bolso do paletó. No trabalho, depois de recordar o rosto da mulher de Gabriel, de lembrar-lhe o corpo inquieto e disponível – e de sorrir, com um pouco de orgulho e de constrangimento, passou a fita adesiva na parte rasgada do envelope, escreveu em letras fortes, “aberto por engano, devolver ao remetente”, chamou o contínuo e pediu-lhe que entregasse a correspondência na agência do correio na esquina. Deu-lhe algumas moedas, e recomendou: “Pergunta se é preciso selar de volta. Se for preciso, compra o selo”.