Um brasileiro revela o Sudão

“Vivi com comida enlatada por um ano” Segundo o capitão Simioni, o Sudão é um dos países mais pobres do mundo e a tentativa da ONU de tentar fazer uma mediação entre a população e os governos pode ficar desacreditado. Isso porque, apesar da realização de diversas patrulhas para saber como é a realidade de cada vilarejo, muitos problemas não são solucionados.

– No início, eu ficava me perguntando como aquelas famílias conseguiam viver naquelas condições. Não existe nenhum cuidado com a higiene e não há água ou luz – conta o militar.

Para se proteger, Simioni comia apenas alimentos enlatados e emagreceu 11 quilos em um mês e meio.

– Eu só comprava água engarrafada, tomate, cebola e pão na cidade. Fiquei praticamente um ano comendo comida enlatada que levei do Brasil e que comprava quando tinha possibilidade de ir a Cartum ou em viagem à Europa.

Antes de chegar ao território sudanês, o brasileiro esperava um ambiente hostil típico de um pós-guerra. Porém, a realidade se apresentou bem mais amena. Apesar do choque cultural e as péssimas condições de higiene, a população o recebeu bem.

– Quando as pessoas viam a nossa bandeira, queriam conversar e começavam a falar o nome do Ronaldinho e do Kaká – lembra Simioni, que afirma que o sudanês é um povo muito simpático.

O brasileiro conta que, em uma visita de rotina a uma casa, o anfitrião o ofereceu água – que é considerado o bem mais valioso no país – em um copo imundo. Simioni, que andava com um purificador na mochila, não pode usar o líquido e muito menos rejeitar a água, pois seria uma ofensa.

– O pior é que aquele mesmo copo servia para todas as pessoas da casa beberem água. Então, eu tive que beber aquela água barrenta e passar para os meus amigos. O dono da casa ainda enchia o copo toda hora – comenta o militar.

Ele admitiu que tinha muito medo de contrair alguma doença no país.

– Depois que fui para o Sudão, passei a tomar remédios de verme de dois em dois meses.

A ONU tenta distribuir melhor a água, construindo poços artesianos, mas o brasileiro constatou que o esforço não dá conta da demanda.

De acordo com Simioni, além da alegria das pessoas, a companhia dos amigos de missão o ajudou a aguentar a saudade de casa e a experiência de ver tanta pobreza e sofrimento.

Futuro incer to O trabalho do militar brasileiro, assim como o de 10 mil estrangeiros, era ajudar no processo de paz entre o Norte e o Sul do Sudão. Depois de mais de 20 anos de uma sangrenta guerra civil (a ONU estima que cerca de 2 milhões de pessoas morreram e mais de 600 mil fugiram), em 2005 a UNIMIS entrou em ação, ajudando na elaboração de um tratado de paz entre as duas partes. Esse processo culminou com a assinatura do Amplo Acordo de Paz.

O tratado também estabeleceu a realização de um referendo, neste ano, que, de acordo com resultados parciais, decidiu pela separação entre o Sul (de maioria cristã) e o Norte (muçulmanos). Porém, questões como divisões das riquezas e a demarcação das fronteiras ainda não foram decididas. Uma das dificuldades, por exemplo, está no fato de que algumas cidades que ficam no Norte do país apoiam o Sul e vice-versa.

Para Simioni, uma das maiores preocupações é o território de Abyei, onde está a mina de petróleo sudanesa. A região é tão importante que o acordo original estabelecia que um referendo também deveria ser feito para decidir se a cidade continua no Norte ou fará parte do Sul.