Pag. 50 - Sem presença de espírito

S e você achou o título do filme meio esdrúxulo, não se espante e saiba que este longa também trata de um tema recorrente nos últimos tempos no cinema nacional e, pelo visto, internacional: o espiritismo. Baseado no livro homônimo do jornalista Ben Sherwood (presidente da ABC News), a história romântica conta sobre um jovem (Zac Efron) que perdeu seu irmão mais novo num terrível acidente, mas o contato que teve com a morte (ele foi ressuscitado) o deixou com a capacidade de ver os espíritos. E, ao fazer uma promessa para o ente querido de que nunca iria abandoná-lo, Charlie enterrou sua vida e seu futuro promissor. Só que o tempo passou e, anos mais tarde, trabalhando como zelador no cemitério da cidade, o jovem recluso acaba se encantando pela velejadora Tess (Amanda Crew), que até arrasta uma asinha por ele, mas pretende dar a volta ao mundo durante seis meses.

Tendo como elemento adicio nal esta dificuldade de se realizar o encontro dos dois corações amantes e o conflito do protagonista em relação ao mundo real e o dos espíritos, o filme transita pelo tema vida após a morte de maneira sensível em alguns momentos, mas surreal em muitos outros.

Se por um lado pode conseguir estabelecer alguma conexão com o público em geral nas horas em que o pequeno Sam (Charlie Tahan) está “presen te”, por outro, bota tudo a perder ao carregar demais na tinta inserindo na trama situações exageradas e até ridículas, como “uma luz” sinalizadora em alto-mar diante de uma situação limite ou uma relação sexual em meio aos túmulos. Com minúsculas pitadas de humor (acredite) capitaneadas por gansos e pequenas participações de atores veteranos como Ray Liotta e Kim Basinger, o filme que cita São Judas Tadeu (das causas perdidas) e aborda com todas as letras a questão da “segunda chance” tem elenco escorado no ator que ainda não encontrou a sua verdadeira chance de se desvencilhar do estereótipo de galã do sucesso High school musical . Assim, com uma trilha sonora apenas coerente (vai de Ramones até uma previsível instrumental melosa), A morte e vida de Charlie não vai passar de mais um filme água com açúcar e um temperinho existencial para muitos.

Para outros, que não vão se sensibilizar com o roteiro sem sal e presença de espírito, o longa poderia vir acompanhado até da Marcha fúnebre , de Chopin.