Pag. 48 - A mentira tem pernas curtas... e gordinhas

H ollywood anda carente de criatividade há tempos e, por isso, o que não faltam são produções adaptando algo conhecido ou, pior ainda, as refilmagens. Baseado no famoso romance de Jonathan Swift, esta nova aventura – atualizada – não é a primeira que bebe na fonte e, provavelmente, não será a última. Na história, Lemuel Gulliver (Jack Black) tem uma função menor num jornal de Manhattan e, para impressionar a editora Darcy (Amanda Peet), por quem é apaixonado, resolve se passar por alguém mais capaz. Ao receber a missão de fazer uma matéria sobre o Triângulo das Bermudas, ele vai parar em Liliput, um lugar onde todos são pequeninos, e acaba vivendo uma grande aventura. Sob o pretexto de vender a ideia de que mentir, principalmente para si mesmo, é sempre a pior mentira (já dizia o saudoso poeta Renato Russo), o roteiro vai costurando situações que fazem valer tal conceito. Escrito pelo mes mo roteirista do sucesso Shrek , As viagens de Gulliver revela-se sem aquele carimbo no passaporte de filmes “família” que conseguem atingir satisfatoriamente mais de um tipo de público. Se em alguns momentos é entretenimento para a criançada, em outros mergulha no universo jovem e adulto (que já foi adolescente), mas a mistura parece ter ficado no meio do caminho. E o que se vê na sala escura (também em 3D, mas dispensável) é um filme regular que comete alguns pecadilhos. É o que acontece, por exemplo, com a piada obscena em cima do olhar de espanto da princesa (Emily Blunt) para a “ferramenta” do herói ao apagar um incêndio com xixi.

Escatológica e de mau gosto.

Contudo, vai ter gente se divertindo com alguns momentos mais inspirados e o excesso de licenças criativas, que incluem o deboche com ícones comerciais da atualidade, muitas citações ou a simples inserção de situações impossíveis. Com elenco coeso e efeitos especiais apenas interessantes, o primeiro longa com atores dirigido por Rob Letterman (O espanta tubarões ) tem entre seus atrativos a trilha sonora para lá de eclética (Kiss, Prince, Guns ’n’ Roses e Edwin Star) e o que Black tira destas sequências sonoras e dançantes, algo já bastante explorado em outros filmes com ele. E, assim, a moral da história para o espectador de qualquer idade é que a mentira tem pernas curtas, gordinhas e calça tênis All Star.