Pag. 12 - Tragédia no paraíso

Há um ano, a tragédia ocorreu em Angra. Agora é a vez de três das mais belas cidades brasileiras A PRESIDENTE Dilma Rousseff irá sobrevoar, hoje, as zonas serranas arrasadas pelas últimas cheias. Os mortos já chegam a 300, e é provável que seu número continue a aumentar, enquanto os escombros são removidos. Pelo menos quatro bombeiros pereceram enquanto trabalhavam na difícil missão de salvamento. A solidariedade é comovente: milhares de pessoas participam dos trabalhos de salvamento e de busca dos corpos. As cenas transmitidas pela televisão nos trazem, com a visão aterrorizante, a emoção: somos um povo que não se entrega diante dos sacrifícios.

São muitas as lições a retirar desse novo episódio – e a primeira delas é a de que não aprendemos com as precedentes. O deslizamento das encostas da Serra do Mar – e de outras montanhas brasileiras – é previsível quando as chuvas são pesadas, como as atuais.

Construir em declives é sempre um risco, como também é risco edificar nos vales estreitos dos rios e córregos. O poder público deveria ser mais rigoroso na concessão de licenças para a edificação em determinadas áreas, e sempre negá-las quando houvesse a presunção de perigo. A repetição dos fatos demonstra que o Estado, em sua esfera de responsabilidade maior, que são as administrações municipais, tem sido negligente.

Há um ano, a tragédia ocorreu em Angra dos Reis. Agora é a vez de três das mais belas cidades brasileiras, e seus arredores: Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis. Poucas paisagens são mais belas do que as das encostas da Serra do Mar, e não foi por acaso que a monarquia e a nobreza do Império as escolheram para ali construir seus palácios e palacetes de verão.

Os desabamentos quase sempre matam mais os pobres do que os ricos – mas os ricos também deles são vítimas.

Desta vez não foram só os trabalhadores pobres e seus filhos que perderam a vida, soterrados pelas avalanches de barro e pedra. Pessoas abastadas, e da alta classe média, que se encontravam em suas residências de montanha, também foram vítimas. Nenhuma morte foi menos dolorosa do que a outra.

Outra – e talvez ainda mais importante lição destas ho ras – é a de que a natureza está disposta a reagir contra seus agressores. O planeta está passando por uma mutação e, ao que parece, rápida. As nevascas do Norte – também acompanhadas de inundações e deslizamentos de encostas – e os violentos temporais no Sul não podem ser desdenhados pelos que os atribuem aos ciclos naturais.

Ainda que assim fosse, o bom-senso nos indicaria a adaptação a essas circunstâncias da história geofísica.

Se o homem não provocou o aquecimento global, cabe-lhe não contribuir para o seu agravamento. A civilização industrial, nascida com a descoberta de fonte barata, e então aparentemente inesgotável, de energia, com o refino do petróleo, não se deixou conduzir pelo bom-senso dos estadistas – quando ainda os havia. Ela se impôs aos estados, como antes se impusera o mercantilismo, e chegamos ao ponto em que nos encontramos.

As grandes tragédias são momentos em que – mesmo temporariamente – descobrimos o valor da solidariedade.

Todos nós estamos sofrendo, no Rio e no resto do Brasil, pelos que morreram, estão feridos e enxotados de suas casas pelas enxurradas e pelos desabamentos, não só no paraíso da serra fluminense mas em todos os outros lugares. Estamos, em quase todas as partes do mundo, sob as águas de um dilúvio.

A presidente, é o que se sabia ontem em Brasília, não irá apenas ver a tragédia do alto e expressar a sua compaixão. Ela deverá tomar medidas efetivas de ajuda aos desabrigados e determinar estudos para que tais catástrofes possam ser previstas – e evitadas. Se assim ela agir, podemos concluir que seu mandato se inicia sob a poderosa legitimidade da ação.