Pag. 30 - Show curto, mas missão cumprida

O equilíbrio precário e o élan meio desengonçado da atração principal contrastaram gritantemente com a abertura feita por Janelle Monàe. Hiperativa e teatral, a jovem cantora entrou no rol dos astros da novíssima música negra, fazendo uma espécie de soul pós-moderno – cacos de James Brown, Prince, Outkast e Michael Jackson se embaralham em seu som. O vigor da apresentação, completa com bailarinos e músicos performáticos, cansa só de olhar. É como se a moça (que canta muito) se esforçasse um pouquinho demais. (Ela chegou a pintar um quadro durante uma das músicas.) O som, alto demais, emboladíssimo, não ajudou.

Após o fim do espetáculo, um cara comentou comigo na fila da cerveja: “O show foi meio rápido, né?” Eu rebati: “Rápido, não. Foi curto”. Não adianta espernear. A moça não tem repertório para cantar além do que foi apresentado. As aguardadas músicas inéditas não apareceram – à exceção de uma versão para Boulevard of broken dreams , de 1934. Ela cantou os hits e re passou quase todo o repertório de Back to black . E acabou, não tem mais nada mesmo.

Vê-la no palco, entretanto, é um espetáculo paralelo à (e talvez mais interessante que a) música. Seu corpo é meio estranho, como o de uma boneca Bratz – o cabelo enorme, a cabeça meio desproporcional e os peitos siliconados contrastando com a fragilidade do resto.

Enfiada num vestido listrado, não deixa de emanar um inegável charme. A boca grande e os olhos pintados ressaltam ainda mais suas feições mais “incomuns” do que exatamente belas. Entre as músicas, ela bebe (e faz gargarejos com) um líquido indeterminado, contido em uma xícara. Ironicamente, só empunha uma cerveja após cantar Rehab . Praticamente não fala com o público, limitando-se a apresentar a banda. Para compensar, sorri e parece se divertir – com uma expressão um tanto alheia, às vezes. Em Some unholy war , o momento corda bamba do show: ela tropeça na letra, erra o tom e cai na risada. O público prende a respiração: será que agora ela desmonta? Nada. Segue adiante, com o apoio da banda. Termina emendando Don’t look back in anger e Me and Mr. Jones , saltitante, alegrinha e coçando o nariz.