Pag. 25 - Solidão em condomínio

É estranho. Tenho milhares, milhares mesmo, de “amigos” no Facebook e não conheço bem a minha vizinha de porta A psicóloga que desapareceu e reapareceu entre o último dia do ano e o meu aniversário é minha vizinha aqui no Jardim Botânico. Foi um choque.

Foi um nó na minha cabeça. Graças a Deus tudo acabou bem. Ou quase. Os desdobramentos disso só a ela e à família dizem respeito, não é mesmo? Mas me deu o que pensar.

Há tempos, li belíssimo texto na rede falando sobre uma senhora velhinha que morrera no prédio da escritora e ninguém soubera. Porque a anciã morreu sozinha. E nada pode ser mais solitário do que uma anciã morrer sozinha, ainda que more num prédio enorme, cheio de vizinhos, todos eles sempre muito apressados e ocupados cuidando de suas próprias vidas, enquanto também envelhecem.

Quando vi a foto da moça no elevador, em cartazete anunciando seu desaparecimento, achei que fosse uma adolescente, uma gatinha de 13, 14 anos, das muitas com quem cruzo nos elevadores. Não sei seus nomes, apenas nos cumprimentamos e trocamos aqueles banais diálogos do dia a dia. Aqui no prédio tenho poucos conhecidos, estamos acomodados em dois blocos, e, como trabalho em casa, nem na garagem vou muito. Pois bem: vi a foto da moça quando estava a caminho da missa, dia 2, no final da tarde, e passei todo o meu tempo na igreja rezando para que a menina aparecesse.

Imaginava a aflição de seus pais, o desespero, o medo, o desamparo, a impotência. Olhava para Nossa Senhora com o Menino no colo e rezava, Ó Maria concebida sem pecado, proteja essa menina onde quer que ela esteja, dê força e coragem a seus pais, que ela volte logo... Fiquei assombrada durante o resto da noite, o fato ali na cabeça, latejando, enquanto eu via TV, lia, na hora em que fui dormir.

Achava que a mocinha podia ter sido sequestrada, podia estar sendo molestada, e me intrigava com o fato de que ela entrara no prédio e dele jamais saíra, juravam todos, e as câmeras de vigilância provavam.

Quando temos filhos pequenos geralmente conhecemos melhor nossos vizinhos. Tenho grandes amigas até hoje que fiz no play e na Praia da Barra, em frente ao condomínio onde fui morar dois meses antes de o Christiano nascer. Primeiro, ele descia no carrinho para tomar sol, depois para brincar no play e entrar de boinha de braço na piscina. Mais tarde, bem mais tarde, já atravessava a Avenida Sernambetiba de prancha de surfe na cabeça e sumia no ho rizonte, de onde de repente reaparecia, pés, braços e corpo deslizando sobre as fortes ondas. E os amigos dele sempre em volta, suas mães e seus pais também ali comigo, sempre, à medida que o tempo passava e as amizades se fortaleciam.

Aqui no prédio do Jardim Botânico, onde vivo sozinha, conheço pouca gente. Quase ninguém. Também não vejo rodas de vizinhos – um ou outro que se dá melhor com aquele casal, com a solteirona gostosona, a viúva magrinha, aquele senhor que sempre puxa papo com todo mundo. Não sou enxerida, e as pessoas daqui também não são.

Prefiro assim. Mas, numa hora dessas, diante de uma desgraça dessa, todo mundo se mobiliza.

O prédio ficou de prontidão até que, finalmente, do nada, a moça apareceu. Graças a Deus. Não quero saber de detalhes, não quero me imiscuir na vida de ninguém, senti mesmo um certo desconforto com aquele batalhão de repórteres na portaria – meus colegas, cumprindo seu dever de dar furo – se é que ainda há furo nesses tempo em que vivemos todos expostos, todos à mostra com nossas fragilidades, desassossegos, neuras.

É estranho isso. Tenho milhares, milhares mesmo, de “amigos” no Facebook – e não conheço bem a minha vizinha de porta. É o mal do tempo. Vamos buscar na rede o antídoto contra a solidão e nos enchemos de amigos – alguns, verdadeiros, amigos da vida, que nos acompanham sempre; outros, que nem sabemos se um dia veremos fora da cena virtual.

Talvez eu nunca venha a ver esta moça. Nem seus pais. Tudo continuará como sempre foi – eles não me conhecem, eu não os conheço, mas moramos todos no mesmo lugar. Mesmo sem conhecê-los, sofri com as notícias, a invasão da privacidade inevitável num caso como este. Imagino que a família até pense em se mudar. Eu pensaria.

Talvez eu nunca venha a conhecer a moça. Mas continuarei rezando por ela.