Pag. 22 - Um capitão de abril

Victor Alves era um dos que tinham mais sentido das responsabilidades que a Revolução lhes trouxera Encontrei-o inúmeras vezes, sempre impecável, cordial, discreto e muito atento à evolução do país S abia-o doente e ainda há pouco tempo tinha falado com ele pelo telefone. Estava aparentemente a resistir bem. A notícia do seu falecimento surgiu de repente, no domingo passado, inesperada. Provocou-me uma profunda tristeza. Victor Alves foi um dos mais ativos e importantes capitães de abril. Dos primeiros que conheci, na Cova da Moura, no fim da manhã de 28 de abril, em que regressei a Lisboa. Foi, desde o início, membro da Comissão Coordenadora do MFA. Talvez um dos que tinham mais sentido das responsabilidades que a Revolução lhes t ro u x e ra .

Foi também dos que mais acompanhei, naqueles meses que valeram anos, e dos primeiros de que me tornei amigo. Fomos colegas em três governos provisórios. Victor Alves como ministro-adjunto do primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, e depois, salvo erro, ministro da Educação. Aliás, era ele, muitas vezes, quem dirigia o Conselho de Ministros, que se prolongava pela tarde e pela noite adentro. Fazia-o com grande sensatez e espírito c o n c i l i a d o r.

Era um patriota, um democrata e um idealista. Militar corajoso – esteve, desde a primeira hora, na conspiração que conduziu à Revolução dos Cravos – foi um militar, com grande vocação de diplomata.

Depois do caso República e no período mais agudo do Prec – conspirei ativamente, em nome do PS, com o chamado Grupo dos Nove, no restaurante Bordalo, onde me encontrava praticamente todas as semanas com Victor Alves, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Victor Crespo, Costa Brás e o saudoso comandante Gomes Mota, entre outros. E mais tarde em casa de Jorge Campinos, contra o golpe que os comunistas e os esquerdistas preparavam, para impor o “poder popular”. Foram vencidos em 25 de novembro de 1975, do qual resultou a normalização democrática da Revolução. Victor Alves, nesse tempo tão difícil e inseguro, voltou a desempenhar um papel particularmente importante.

No período seguinte, depois da eleição presidencial de Ramalho Eanes e dos governos constitucionais, Victor Alves foi dos mais próximos colaboradores do presidente. Teve a missão de percorrer o mundo, a contactar a emigração portuguesa e a reforçar os laços dos emigrantes com a pátria.

Fez um trabalho excelente, como organizador das cerimônias do Dia de Camões e das Comunidades. Foi nesses anos que as suas raras quali dades de diplomata mais se salientaram.

Passaram os anos. O capitão de abril tornou-se coronel.

Devia ter sido, como alguns outros, general, dados os serviços prestados à pátria e à República. Encontrei-o inúmeras vezes, sempre impecável, cordial, discreto, e muito atento à evolução do país. Nos últimos anos voltamos a encontrar-nos com maior frequência. Por exemplo: fez parte, em representação da Civitas, da Comissão Nacional para as Comemorações do 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de que fui presidente. Era um sage, que os anos e a longa experiência das questões de Estado, conseguida a pulso, desinteressadamente, mais uma vez se revelou.

O seu falecimento representa uma grande perda.

Deixa para os que o conheceram bem, como eu, uma grande saudade. Permitam-me que me dirija a sua esposa, companheira tão dedicada de tantos anos, tão discreta e inteligente, e a sua filha, que lhe deu uma neta, que era a sua grande alegria, no ocaso da vida, e lhes apresente as minhas muito sentidas condolências.