Pag. 25 - Todas as Coras

E m dezembro de 1980, o poeta Carlos Drummond de Andrade apresentava ao Brasil, através das páginas do Caderno B , um talento escondido.

Avisou aos seus leitores: “Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada”. Depois dessa crônica, intitulada Cora Coralina, de Goiás , o país conheceu a jovem intelectual, que já escrevia poesia aos 14 anos, mas só teve seu primeiro livro publicado aos 75. A partir de hoje, o público carioca tem uma nova oportunidade de mergulhar no universo (literário e íntimo) da artista com a abertura da exposição Cora Coralina – Coração do Brasil , que já passou por São Paulo e agora chega ao CCBB do Rio revista e ampliada.

Com curadoria da produtora cultural Júlia Peregrino, a mostra reúne correspondências, artigos, fotografias e os mais diversos documentos que marcaram a trajetória de Cora, pseudônimo da Anna Lins dos Guimarães, nascida em 1889.

– A cidade era um lugar de muitas Anas, e ela falava que não queria que um dia alguém lesse seus escritos e a confundisse com outra “até mais bonita do que eu” – Divulgação lembra a filha Vicência Brêtas Tahan. – Para mim, ela foi exemplo de perseverança. Nasceu em um mundo em que mulher era ensinada a ser dona de casa e nada mais. Mas nunca perdeu a fé de que iria ser publicada um dia. Esperou mais de 40 anos por isso e conseguiu. Ela não tinha hora para escrever, criava quando a inspiração vinha. À noite, acendia uma vela, abria o caderno e passava a limpo seus poemas.

Muitos desses documentos jamais tinham deixado a Casa de Cora Coralina, espaço memorial instalado na casa em que ela viveu, até Júlia organizar a exposição que foi vista por mais de 400 mil pessoas no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em 2009, num processo semelhante às bem-sucedidas mostras que homenagearam Clarice Lispector e Gilberto Freyre.

Através do material, o espectador entra em contato com a mulher simples, porém revolucionária e ativista: tinha preocupações políticas e sociais.

Continua na página seguinte. FAMA MUNDIAL – Cora, em 1984, declamando poemas. No detalhe, a crônica publicada no Caderno B.