Pag. 12 - Obama é chamado de comunista e muçulmano

Para o professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense, Williams Gonçalves, muitos republicanos extremistas entendem que as ações do governo Obama são anti-americanas e até comunistas.

– A elite política americana manipulou por muito tempo a sociedade contra os soviéticos.

Era conveniente que houvesse essa ameaça para justificar guerras e promover o setor bélico, mas, atualmente, não faz mais sentido – comenta.

De acordo com Gonçalves, os americanos não têm a tradição de golpes de estado, mas praticam atentados contra autoridades. Um exemplo seria o assassinato do presidente John Kennedy, em 1963. Além disso, a crise econômica agravou a in satisfação da população. O especialista ainda compara o extremismo nos Estados Unidos ao da Alemanha na década de 30, quando o nazismo surgiu.

– Nós vemos manifestações claramente fascistas. A crise teve início em 2008 e, antes, já havia um processo de desigualdade social. Isso só se agravou no governo Bush – argumenta Gonçalves, que acredita que a falta de eficiência de Obama em cumprir as promessas de campanha deixou os americanos ainda mais desiludidos com o governo.

– O fato de ele ter ganho as eleições com aquela plataforma levantou um ódio muito grande. Alguns republicanos dizem que o Obama é anti-americano, muçulmano.

Já o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, Virgílio Arraes, afirma que o extremismo sempre existiu nos EUA e, com a saída dos republicanos da Casa Branca, os conservadores se sentiram mais estimulados a pregar contra o “esquerdismo”.

– O próprio atirador, aparentemente, é um sujeito doente, que pode ter sido impulsionado por essa retórica extremista – adverte Arraes, para quem o discurso da ex-governadora do Alasca, a republicana Sarah Palin, não é diretamente responsável pela tragédia. – Mas esse discurso estimula a histeria, o desespero e o sentimento de que o democrata representaria um anti-americanismo. De acordo com o professor da UNB, o ataque está relacionado à intervenção do Estado na vida das pessoas e não à intolerância política.

– Os americanos não concordam com a entrada do Estado em suas vidas, e uma prova de que o atentado não teve uma mobilização meramente política é a morte do juiz federal John Roll, nomeado pelo ex-presidente republicano George W. Bush.

Votações paralisadas Para tentar acalmar o país dividido entre republicanos e democratas, o novo presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner, anunciou o adiamento de toda a agenda da semana. Para o dia 12, estava prevista a votação de uma lei para rechaçar a reforma do sistema de saúde.

Os republicanos, que são maioria na Câmara, pretendiam vetar a reforma, que é considerada a principal vitória do presidente Barack Obama. A ação, porém, seria simbólica, porque o Senado é majoritariamente democrata e invalidaria a medida.