Réquiem para Rudy Van Gelder (1924-2016)

No último dia 25, Rudy Van Gelder morreu, aos 91 anos, na sua casa-estúdio em Englewood Cliffs, Nova Jersey. Em 2009, ele tinha sido sagrado “jazz master” pela National Endowment for the Arts - a agência independente do governo dos Estados Unidos que “canoniza” as chamadas lendas vivas das artes. Nos últimos anos, foram distinguidos com o título, dentre outros músicos de jazz, o pianista Keith Jarrett, o vibrafonista Gary Burton, a compositora-chefe de orquestra Carla Bley e os saxofonistas Charles Lloyd, Archie Shepp e Pharoah Sanders.

Rudy Van Gelder não era, no entanto, um músico de jazz. Era engenheiro de som (recording engineer). Mas – como escreveu Peter Keepnews no obituário do New York Times – foi “um engenheiro de áudio cujo trabalho com Miles Davis, John Coltrane e numerosos outros músicos ajudou a definir o som do jazz em disco”.

Vale anotar, desde logo, que o disco é o registro por excelência do jazz – um modo dinâmico de expressão musical, no qual a execução instrumental ou vocal é total ou parcialmente improvisada. A história do jazz é contada (e ouvida) desde as primitivas gravações cheias de estalos da década de 1920 até os últimos lançamentos relevantes em CDs ou em meios virtuais apropriados.

E voltando a Van Gelder, com a palavra Felix Contreras, da National Public Radio (NPR), que assim se referiu ao “mestre do som”, logo após a notícia do seu falecimento: “Ele não foi um produtor com controle artístico das sessões de gravações. Mas como técnico, Van Gelder controlava cada aspecto do processo (no estúdio ou nos registros ao vivo em clubes), da instalação ao mastering. Ele era notoriamente sigiloso acerca de suas técnicas, embora parte do seu método incluía a colocação de cada instrumento no seu próprio espaço sônico, permitindo sutilezas e dinâmicas quanto à manipulação, pelos músicos, dos metais e das madeiras dos instrumentos acústicos”.

A lista de obras-primas do jazz que têm a marca do mestre (“Recording by Rudy Van Gelder”), em discos dos selos Prestige, Blue Note e Impulse, é muito extensa, e pode ser consultada no site da Amazon (www.amazon.com/Rudy-Gelder-Editions-Complete-Collection/dp/B000F8MI02).

Mas não se pode deixar de ressaltar a sua “assinatura” nas sessões ou nos registros definitivos de: Birth of the Cool (Capitol, 1949-50), “certidão de nascimento” do cool jazz, com o noneto de Miles Davis e arranjos de Gil Evans, John Lewis, Gerry Mulligan e John Carisi; Work(Prestige, 1954), o encontro de Sonny Rollins com Thelonious Monk; The Jazz Messengers at the Cafe Bohemia (Blue Note, 1955), joia do tesouro da segunda formação do quinteto de Art Blakey com Kenny Dorham, Hank Mobley e Horace Silver; os álbuns Relaxin', Cookin' eStreamin' (Prestige, 1956), do quinteto de Miles Davis com John Coltrane; Saxophone Colossus (Prestige, 1956), a consagração de Sonny Rollins, então com 26 anos; Out of the Cool (Impulse, 1960/61), da orquestra do grande Gil Evans; Mayden Voyage e Empyryan Isles (Blue Note, 1964), do quinteto pós-bop de Herbie Hancock; Speak no Evil (Blue Note, 1964), de Wayne Shorter, ao lado Hancock, Ron Carter e Elvin Jones; A Love Supreme (Impulse, 1964), a magnum opus de John Coltrane; Out to Lunch (Blue Note, 1964), disco marcante de Eric Dolphy e do chamado free jazz