Carla Bley celebra 80 anos ao piano com CD em trio

Lá se vão quatro décadas, a exuberante compositora, arranjadora e chefe de orquestra Carla Bley tornou-se a “grande dama” do jazz contemporâneo. Inicialmente com o apoio de seus dois primeiros maridos – o pianista Paul Bley e o trompetista Michael Mantler – ela se destacou no âmbito da Jazz Composers Orchestra Association (JCOA), que contou com a participação de ícones do free jazz como Cecil Taylor, Don Cherry e Roswell Rudd. Mas foram quatro álbuns da sua banda de 10 integrantes, gravados pela etiqueta Watt (de Carla e Mantler) entre 1978 e 1981, que lhe deram prestígio e fama: Musique mécaniqueSocial studiesLive! e I hate to sing.

A compositora passou também a interpretar a sua obra em petit comité, tocando piano e eventualmente órgão (Hammond B-3). E comemorou seu 75º aniversário com o CD Trios, gravado em Lugano (Suíça) por Manfred Eicher (dono e produtor da ECM), ao lado dos eminentes Steve Swallow (baixo elétrico) – com quem vive desde 1985 – e Andy Sheppard (saxofones).

Declarada jazz master pela National Endowment of Arts (NEA) em 2015, Carla Bley chega aos 80 anos neste próximo 11 de maio, e vai marcar a data com o lançamento de outro álbum na companhia de Swallow e Sheppard, também gravado em Lugano, em novembro do ano passado.

Trata-se de Andando el tiempo, que é igualmente o título de uma suíte de três partes, totalizando quase 30 minutos: Sin fin (10m20),Potacion de guaya (9m45) e Camino al volver (8m25). As duas outras peças são Saints alive! (8m35) e Naked bridges/Diving brides (10m)

Carla Bley não é – nem nunca pretendeu ser – uma virtuose do piano. Sua técnica é perfeitamente adequada à instrumentalização de sua maestria na arte da composição, seja na orquestra ou nos pequenos conjuntos. No formato trio, ela desenvolveu com Sheppard e Swallow, desde meados da década de 90, uma parceria irretocável em matéria de interação, que se torna telepática quando eles deixam as partes escritas de lado.

Andando el tiempo é uma requintada sessão de jazz camerístico em trio, num clima predominantemente impressionista, de andamento mais para andante e alegretto do que para allegro. Mas o swing – causa formal do jazz – é sempre alimentado pela impecável bass guitar de Swallow e pelo comping da pianista-líder.

Andy Sheppard, nascido na Inglaterra há 59 anos, é um saxofonista consagrado no planeta jazz. Neste novo álbum (o 12º como sideman de Carla, na orquestra, em trio ou quarteto), ele tem destaque muito especial, no sax tenor, em Sin fin e Camino al volver; no sax soprano, emSaints alive! e Naked bridges.

Esta última peça pode ser apreciada em vídeo (www.youtube.com/watch?v=FYoB5DuCVWg) que registra uma apresentação do trio no clube New Morning, Paris, em outubro do ano passado.

PULITZER PARA THREADGILL

O saxofonista-flautista-compositor Henry Threadgill ganhou o Prêmio Pulitzer deste ano, na área da música, pelo álbum In for a penny, in for a pound (Pi Recordings), “uma obra altamente original na qual música anotada e a improvisação mesclam-se numa tapeçaria sônica que parece a própria expressão da vida americana moderna”, conforme o release da Universidade de Columbia, que administra a cobiçada láurea, focada também no jornalismo e na literatura.

Threadgill, 72 anos, é o terceiro jazzman a conquistar o Pulitzer Prize (criado em 1917). Os dois outros premiados foram Wynton Marsalis (Blood on the fields, 1997) e Ornette Coleman (Sound grammar, 2007).

O CD In for a penny, in for a pound, gravado em dezembro de 2014 e lançado no ano passado, é do quinteto Zooid, liderado por Threadgill, e integrado por Jose Davila (trombone, tuba), Liberty Ellman (guitarra), Christopher Hoffman (violoncelo) e Elliot Kavee (bateria, percussão).