Christian McBride Trio ao vivo no Village Vanguard

Como sabem os iniciados, o Village Vanguard – fundado há 80 anos por Max Gordon (1903-1989) – é a “catedral” do jazz de Nova York. Apesar de situado no subsolo de um velho prédio na 7ª Avenue South, altura da Rua 11, com capacidade para 120 ouvintes, no pequeno palco do clube só se apresentam, na condição de líderes ou solistas, músicos de excelência comprovada ou “estrelas em ascensão”.

Vários discos gravados “live at the Village Vanguard” tornaram-se marcos da história do jazz, como os de Sonny Rollins (1957), Bill Evans (1961), John Coltrane (1961,1966), Art Pepper (1977), Joe Lovano (1966, 2003), Brad Mehldau (1989) e Fred Hersch (2003).

Agora foi a vez do grande contrabaixista Christian McBride, 43 anos, registrar, no comando do seu trio (Christian Sands, piano; Ulysses Owens, bateria), o CD Live at the Village Vanguard (Mack Avenue). O álbum é uma seleção de oito faixas (mais uma de introdução, na voz do líder) gravadas em duas noites de dezembro do ano passado.

É bem verdade que, desde 2007, McBride é um daqueles músicos fora de série escolhidos por Lorraine Gordon – a viúva do velho Max, e ainda à frente do Vanguard – para se apresentar no clube anualmente, como líder, em “residência” de uma semana. Mas acrescentar à sua já rica discografia um álbum ao vivo naquele templo do jazz foi uma oportunidade muito especial, em todos os sentidos, para o baixista “número um” da geração de jazzmen que começou a brilhar na década de 1990.

O trio McBride-Sands-Owens já lançara pela Mack Avenue, em 2013, o CD Out here, muito aplaudido pela crítica especializada. Mas os calorosos aplausos ouvidos no registro ao vivo no Vanguard são manifestações que refletem, de maneira bem mais espontânea e entusiástica, o engenho, a arte e a interação da excepcional trinca (Ouça-se a eletrizante interpretação de mais de 8 minutos de Cherokee em www.youtube.com/watch?v=F4UbVHNvgys).

A seleção foi feita com base em dois sets, em dias diferentes, com preferência para o clima de contínua vibração deCherokee, que também move as versões de Fried pies (9m15), tema de Wes Montgomery, e de Interlude (7m15), de J.J. Johnson.

Mas há tempo e lugar para duas peças bem reflexivas: Sand dune (9m05), de autoria do pianista Christian Sands, com solos mais longos de McBride e do compositor; Good morning heartache (10m30), o standard celebrizado por Billie Holiday, com direito a solo no arco do contrabaixista-líder.

Down by the riverside (6m45), secular spiritual, tem um tratamento bluesy mais profano do que religioso. E a “festa” de Christian McBride & Cia no Vanguard encerra-se com uma animadíssima versão de Car wash (7m), levada em back beat, com participação do público.

Este parágrafo final é dedicado ao sensacional pianista Christian Sands, 26 anos, xará de McBride, que assim fala dele: “Quando fui apresentado a Christian, disseram-me que ele era um protegido do Dr. Billy Taylor, de Hank Jones e Oscar Peterson, todos estes lendários mestres do piano. Mas, logo em seguida, ouvi-o tocando aquele tipo de música esotérica, angular, proveniente do estilo Andrew Hill/Paul Bley. E então descobri que ele vinha estudando com Vijay Iyer, Jason Moran e Gonzalo Rubalcaba. Aí saquei: Esse cara conhece a linguagem toda!”