Réquiem para Ornette Coleman

Entre 1958 e 1960, Ornette Coleman detonou o free jazz à frente de seus quartetos, gravando três álbuns cujos títulos revelavam claramente suas intenções revolucionárias: Tomorrow is the questionThe shape of jazz to come e Change of the Century. O manifesto definitivo da new thing foi o LP Free jazz (Atlantic, dezembro de 1960), uma improvisação coletiva politonal de 38 minutos, protagonizada por um quarteto duplo no qual o saxofonista alto líder confabulava com outros músicos excepcionais, entre eles Eric Dolphy, Freddie Hubbard, Don Cherry e os baixistas Charlie Haden e Scott LaFaro.

Randolph Denard Ornette Coleman, nascido em Fort Worth (Texas) há 85 anos, morreu no último dia 11, em Manhattan. “Canonizado” em vida, ele estava afastado dos palcos desde 2007. Dois anos antes, num concerto na Alemanha, gravou o seu último CD, intitulado Sound grammar, com um hiperativo e original quarteto integrado por seu filho Denardo (bateria) e dois baixistas (Greg Cohen, em pizzicato; Tony Falanga, sempre no arco). Por conta desse extraordinário registro ao vivo, Coleman foi agraciado com o Prêmio Pullitzer de música de 2007, passando a figurar na mais ilustre lista dos mestres da música erudita americana, na companhia de Aaron Copland, Charles Ives e Samuel Barber.

Reproduzo, neste réquiem, um parágrafo do capítulo dedicado a Ornette no meu livro Obras-Primas do Jazz (Jorge Zahar Editor, 1986):

“Ornette Coleman não radicalizava [quando surgiu na cena jazzística], apenas, a improvisação coletiva no pequeno conjunto de jazz. Seu discurso exacerbava a tendência atonal de Charlie Parker e a concepção de Sonny Rollins de dissecar a melodia, deixando em segundo plano a invenção melódica por sobre a base harmônica do tema. A rejeição do primado harmônico-melódico na improvisação jazzística em prol do culto de uma permanente tensão rítmico-melódica, é a base do estilo de Coleman. Essa tensão rítmico-melódica não é, no entanto, fruto de uma opção puramente intelectual. É também resultante de uma postura emocional e de uma herança cultural. Ornette é, basicamente, um blues shouter que submete as estruturas convencionais do jazz ao vôo livre da invenção melódica livre e emotiva, obtendo um blend original entre a modernidade da atonalidade e a ancestralidade do blues”.

Na segunda metade da década de 1970, Ornette tornou-se o arauto da “harmolodia” - teoria (e prática) baseada no pressuposto de que “harmonia, melodia, velocidade, ritmo, tempo e frases têm peso idêntico nos resultados decorrentes da colocação (“placing”) e do espaçamento (“spacing”) de ideias”. Tal concepção “harmolódica” foi desenvolvida pelo saxofonista numa linha bem funky, num conjunto integrado por dois guitarristas (Charles Ellerbee e Bern Nix) e pelo baixista (também plugado) Jamaaladeen Tacuma. O grupo – chamado Prime Time – ftocou na fronteira ambígua do jazz com a música popplanetária.

Mas Ornette será sempre lembrado e admirado não só como instrumentista, founding father do free jazz, mas também como compositor, inspirado inventor de temas hipnóticos que enriqueceram a “estante” do jazz contemporâneo. O respeitado crítico e músico Ian Carr sublinhou no referencial Jazz/The Rough Guide (Londres, 1995): “Não há dúvida sobre a qualidade de suas melhores composições para pequenos conjuntos, muitas das quais entraram para o repertório jazzístico”. E mais: “Ele é acima de tudo um compositor, mas suas composições nascem do seu modo de tocar e improvisar”.

Uma lista das mais cativantes peças de Ornette Coleman não poderia deixar de fora estas 10: a pungente balada Lonely womanTurnaroundThe sphinxRamblin'Una muy bonitaCongenialityBlues connotationBird foodThe blessingWhen will the blues leave?.

(A versão original de Lonely woman, do álbum The shape of jazz to come, de 1959 - Ornette, sax alto; Don Cherry, corneta; Charlie Haden, baixo; Billy Higgins, bateria - pode ser ouvida em www.youtube.com/watch?v=ZWOelbXVRK0).