Blue Note lança concerto inédito de Thelonious Monk de 1969

Thelonious Sphere Monk (1917-1982) é celebrado como um dos fundadores do jazz moderno, ao lado de Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Bud Powell. Mas ficou conhecido também como o “anacoreta (ou eremita) do jazz”. Seu estilo único e subversivo, como pianista ou compositor, sempre resistiu a qualquer classificação. O epíteto que melhor lhe assenta é mesmo o de gênio. Ou melhor, Genius of modern music - título dos dois álbuns (LPs) que a Blue Note editou na década de 50, enfeixando as gravações feitas pela etiqueta de Alfred Lion e Francis Wolff entre 1947 e 1952.

Em 1959, a música de Monk foi consagrada, no Town Hall de Nova York, por uma orquestra de 10 membros (Monk ao piano, arranjos de Hall Overton, o trompetista Donald Byrd e os saxofonistas Charlie Rouse e Phil Woods em destaque). O concerto foi registrado pela Riverside, e antecedeu a série de discos para a Columbia (com o quarteto integrado pelo fiel Rouse no sax tenor), dos quais os primeiros foram os antológicos Criss cross (1962-63) e It's Monk's time (1964).

Thelonious Monk virou capa da revista Time em fevereiro de 1964. Foi o terceiro jazzman a merecer tal distinção – na época um relevante reconhecimento nacional – 10 anos depois de Dave Brubeck e 15 anos depois de Louis Armstrong.

O último álbum importante gravado por Monk para a Columbia foi Underground (dezembro de 1967/fevereiro de 1968), ao lado de Rouse, Larry Gales (baixo) e Ben Riley (bateria), mais o mestre do vocalese e do scat singing Jon Hendricks dando um show em In walked Bud. Além disso, o LP continha três peças novas que são, hoje, joias da Monkiana: Ugly beautyGreen chimneys e Boo Boo's birthday.

Assim é que constitui um belo presente de Natal para os jazzófilos o lançamento, pela Blue Note, de um registro inédito de Thelonious Monk, na Salle Pleyel, Paris, de dezembro de 1969, quando ele já estava perto dos 53 anos.

Thelonius Monk Paris 1969 já está disponível nas lojas virtuais, em CD ou vinil, e na combinação CD/DVD – um filme em preto e branco do concerto, mais uma entrevista feita na ocasião pelo baixista Jacques Hess.

Pouco antes, Gales e Riley tinham deixado o quarteto de Monk. Com turnê já marcada pela Europa, ele admitiu dois jovensprotegés: o baixista Nate Hygelund, que estudou no Berklee College of Music, e o baterista Paris Wright, então com 17 anos. Este último era filho do baixista Herman Wright, de Detroit, que foi sideman de Chet Baker em cinco discos do quinteto do trompetista para o selo Prestige, entre os quais Comin' on e Smokin', ambos de 1965.

No CD Thelonious Monk Paris 1969, Wright e Hygelund não comprometem, absolutamente, a sólida parceria Monk-Rouse. O genial pianista-compositor e o saxofonista tenor (1924-1988) – que merece como poucos o título de unsung hero do jazz – reinterpretam diante uma plateia calorosa oito composições do mestre, com direito a solos de até três minutos. As faixas do quarteto são I mean you (7m20), Ruby my dear (6m30), Straight no chaser (6m45), Light blue (7m35), Epistrophy (4m50),Nutty (10m), Blue Monk (2m). Mais duas faixas com o tema Bright Mississipi, sendo a primeira (4m20) uma versão bem original da peça, aberta com solo de bateria de um minuto e meio.

Thelonious dispensa os acólitos, e toca solo, em três momentos do concerto de Paris: ao improvisar a partir dos standardsDon't blame me (4m50) e I love you sweetheart of all my dreams (1m30), e ao rever aquela belíssima balada que escreveu para sua mulher, Crepuscule with Nellie (2m25).

CHICO HAMILTON (1921-2013)

Há dois anos, ainda ativo e criativo, o baterista, compositor e líder Chico Hamilton comemorou o 90º aniversário num clube de Nova York, à frente do grupo com o qual gravou o CD Revelation. Na última segunda-feira (25/11), ele morreu, deixando um marcante legado que o fez merecer, em 2004, o título de mestre do jazz da National Endowment for the Arts (NEA), na honrosa companhia de Jim Hall e Herbie Hancock.

O baterista começou a aparecer na California, associado ao cool jazz, em 1952, no histórico e refinado quarteto (sem piano) Gerry Mulligan-Chet Baker. Mas ganhou renome como líder do quinteto com Buddy Colette (saxes, clarinete, flauta), Jim Hall (guitarra), Fred Katz (violoncelo) e Carson Smith (baixo), que gravou, em 1955, o antológico LP The Chico Hamilton quintet featuring Buddy Colette.

Esse quinteto aliava, em suas composições e arranjos, aspectos formais da música erudita à criatividade imprevisível do jazz (A nice day Blue sands, de Colette; The morning after, de Hamilton; The sage, de Katz). Nat Hentoff escreveu na Downbeat, há 55 anos, quando do lançamento do LP: “O novo quinteto de Chico Hamilton é responsável por um dos mais estimulantes, consistentemente inventivos e únicos discos de jazz deste ou de qualquer ano recente”.

A Mosaic chegou a editar, em 1997, uma caixa de seis CDs, incluindo as demais formações do conjunto básico de Hamilton, responsável pela descoberta de jovens músicos que se tornariam, na década de 60, grandes figuras do jazz contemporâneo, como os saxofonistas Eric Dolphy e Charles Lloyd. Em 2010, o selo inglês Avid lançou o CD duplo Three classic albums plus, reunindo 34 faixas dos mais importantes combos de Hamilton.