Carla Bley revisita sua obra no CD "Trios"

Carla Bley comemorou, em maio último, 75 anos muito bem vividos, dos quais mais de 50 dedicados à música, há muito admirada como uma das maiores figuras do jazz moderno, como compositora, arranjadora e chefe de orquestra. Nascida Carla Borg, em Oakland, California, filha de um professor de piano e organista, ela começou a brilhar como compositora ao lado de seu primeiro marido, o sofisticado pianista Paul Bley, do qual herdou o sobrenome. Casou-se depois com o trompetista Michael Mantler, com quem fundou, em meados da década de 60, a Jazz Composers Orchestra Association. O magnífico baixista Steve Swallow é o seu partner – em casa, nos estúdios e nos concertos – desde os anos 80.

A borbulhante e às vezes irreverente big band da compositora-arranjadora (eventualmente pianista ou organista) está muito bem documentada em, pelo menos, cinco álbuns editados pela Watt-ECM nas três décadas passadas: Live!, gravado em 1981; Fleur carnivore, 1989; The very big Carla Bley band, 1990; Big band theory, 1993; Appearing nightly, 2006, eleito o disco do ano pela Jazz Journalists Association quando lançado em 2008.

Mas a obra da compositora em pequenos conjuntos, atuando também no órgão (Hammond B-3) ou no piano, não é secundária. Muito pelo contrário.

Em 2011, ela ressurgiu tocando órgão em quarteto liderado por Steve Swallow, no recém-lançado CD Into the wood (Watt/ECM), já comentado nesta coluna (17/8/13). E, agora, reaparece, como compositora e pianista, à frente do seu primoroso trio com Swallow e Andy Sheppard – saxofonista inglês (tenor e soprano) de renome internacional, associado a Carla desde Fleur carnivore. Ostrês primorosos músicos já tinham gravado, em 1994, Songs with legs, um dos mais envolventes e refinados álbuns da discografia de La Bley.

O novo disco, gravado em abril de 2012, em Lugano (Suíça), diretamente por Manfred Eicher, dono e produtor da ECM, intitula-se, simplesmente, Trios. E é uma obra-prima em matéria de jazz camerístico, que flui – sem prejuízo nem do formato composicional nem do swing – ao sabor do engenho e da arte de três músicos que sabem tratar e dosar, como poucos, melodia, ritmo e harmonia, numa constante work in progress. Não é por acaso que a primeira faixa do CD é uma recriação em tempo lento da pungente Utviklingssang (“canção em desenvolvimento”, em norueguês), que Carla escreveu para o LP Social studies (1980).

A compositora-intérprete comenta que “a personalidade” deste CD é “bem séria, e também nostálgica”. E acrescenta: “Temos tocado no formato trio há 20 anos, e temos um imenso book de música. Assim, no estúdio em Lugano, começamos a tocar um tema depois do outro, e gravamos aqueles que Manfred achou mais interessantes. Foi ele que fez as escolhas, e nós gostamos da ideia”.

As faixas seguintes a Utviklinssang (7m55) são: Vashkar (7m20), escrita por Carla circa 1963, de swing dolente, com uma figura em ostinato do baixo de Swallow, e destaque para o sax soprano especulativo e modal de Sheppard; a suíte Les trois lagons/ D'après Henri Matisse (14m55), em três movimentos, apresentada pela primeira vez no Festival de Grenoble de 1996, com o mesmo trio; também em forma de suítes, reinterpretações bem diferentes de Wild life (11m30), originalmente gravada em oiteto (álbum Night-glo, 1985), e de The girl who cried champagne (14m20), peça que foi composta para sexteto (1968), e também gravada pela big band em Fleur carnivore.

Carla Bley nunca pretendeu ser ouvida como uma pianista-virtuose. Mas jamais tinha gravado um disco em que o piano soa tão cristalino e se mostra tão referencial como em Trios – presença certa nas listas dos melhores álbuns de jazz do ano.