Oliver Lake, sempre na linha de frente

O saxofonista (alto) Oliver Lake, 72 anos, é uma das personalidades mais marcantes da segunda leva dos músicos que – a partir de Ornette Coleman, John Coltrane e Eric Dolphy - promoveram a mais radical revolução conceitual do jazz. Nos anos 1970, o chamado free jazz (ou new thing) foi cultuado e cultivado, de modo muito especial, por duas “tribos” que viviam fora do eixo Nova York-Los Angeles: A Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), em Chicago, que gerou o célebre quinteto Art Ensemble of Chicago; o Black Artists Group (BAG), de St. Louis (Missouri), do qual emergiram Lake, e os também saxofonistas Julius Hemphill e Hamiet Bluiett (sax barítono).

Estes três mais o celebrado tenorista David Murray formaram, em 1977, o World Saxophone Quartet - um combo sem qualquer instrumento de apoio rítmico ou harmônico devotado a um certo desconstrutivismo melódico, com base numa polifonia tendente à politonalidade, e aberta a efeitos multifônicos. O WSQ apresenta-se até hoje, com o lugar de Hemphill (1938-1995) preenchido por músicos do quilate de John Purcell e, mais recentemente, de Jaleel Shaw.

Mas as apresentações e a discografia de Oliver Lake não se limitam à sua participação de mais de 35 anos no WSQ. Ele mantém, com sucesso, o Trio 3, com os também veteranos vanguardistas Reggie Workman (baixo) e Andrew Cyrille (bateria), e uma big band de 17 integrantes, cujo último álbum foi Wheels (Passin' Through Records, 2012).

O saxofonista-compositor vem de lançar pelo selo Intakt um novo CD, Refraction- Breakin' glass, registro de outra sessão de estúdio também do ano passado, no Brooklyn. Só que com o Trio 3 transformado em quarteto, com a escalação de Jason Moran – considerado pela maioria dos críticos o mais técnico e inventivo pianista da geração nascida naquela década de 70.

Este disco é, em primeiro lugar, mais uma prova de que o bom jazz é ageless, sendo em geral pacífica e produtiva, no palco ou no estúdio, a reunião de gerações muito distanciadas no tempo. No caso, um trio de septuagenários ainda em forma acolhendo como um “igual” um pianista de 38 anos, que lidera o aclamado trio Bandwagon, e é também partner (desde 2007) do guru do sax tenor Charles Lloyd.

Refraction-Breakin' glass (4m50) - a faixa-título do novo álbum de Oliver Lake – é uma composição de Jason Moran, que assina também Foot under foot (8m40). O baixista Workman é o autor de Summit conference (10m50) e Cycle III (5m45). O baterista Cyrille escreveu três peças: AM 2 ½ (6m35), Listen (4m20) e High priest (7m20). O líder Lake compôs Luthers lament (3m40) e Vamp (5m05).

Vê-se, assim, que a sessão do Trio 3 mais Moran não se baseia, apenas, na música concebida e “ditada” pelo suposto líder Lake, mas tem um espírito mais cooperativo. No entanto, o saxofonista não se contém, e se destaca nos seus vôos vertiginosos, imprevisíveis, “pós-ornetteanos”, por sobre o fervilhar da seção rítmico-harmônica. É música bem free. Nada a ver com o conhecido caminho tema-ponte-tema-solos-troca de compassos-volta ao tema. Mesmo os vamps (pequenos temas rítmico-melódicos repetidos) podem aparecer no minuto final da faixa, como ocorre, por exemplo, exatamente, na peçaVamp. Na faixa-título – que deveria se chamar apenas Refraction – o saxofonista chega a deixar o instrumento de lado, e vira rapper, para recitar o seu poema Breaking glass.