Mark Masters recria temas da Ellingtonia

O arranjador, band leader e professor Mark Masters, 55 anos, não tem tanta fama no mundo do jazz como a admiração que lhe devotam os músicos e a crítica especializada. Radicado na California, ele é presidente do American Jazz Institute (AJI), instituição que tem como conselheiros os eminentes Lee Konitz, Andrew Cyrille, Billy Harper e Nat Hentoff. A música que produziu à frente de suas ensembles está documentada em interessante discografia editada pelo consórcio AJI-Capri (gravadora do Colorado).

Dos álbuns assinados por Masters, nos últimos anos, dois merecem especial destaque: The Clifford Brown project (2003), uma releitura de temas e de solos do legendário trompetista bop (1930-1956), com arranjos para uma banda de cinco pistões, tendo Tim Hagans como principal solista; Porgy & Bess redefined (2005), recriação instrumental de 10 árias da obra favorita de Gershwin por um conjunto em que brilham Hagans (mais uma vez), o tenorista Billy Harper e o saxofonista barítono Gary Smulyan.

Mark Masters, o AJI e a Capri vêm de lançar um álbum, gravado em janeiro deste ano, destinado especialmente aos ouvintes que prezam reverências criativas à mainstream do jazz e a seus mestres. O título do CD é Ellington saxophone encounters. Seu conteúdo é a interpretação de 12 temas assinados por Duke Ellington e/ou pelos saxofonistas (e um clarinetista) de sua orquestra (Ben Webster, Paul Gonsalves, Johnny Hodges, Harry Carney e Jimmy Hamilton). Destas peças, as duas mais conhecidas são do Duke (Jeep's blues e Rockin' in rhythm). Os demais temas foram selecionados de gravações dos pequenos conjuntos formados pelos sidemen da maior instituição orquestral da história do jazz. 

Para esta escavação da Ellingtonia, o arranjador e líder Mark Masters reuniu um oiteto de alto nível, no qual cinco palhetas têm o apoio de piano (Bill Cunliffe), baixo (Tom Warrington) e bateria (Joe La Barbera). Na linha de frente, nada mais nada menos do que Gary Smulyan (sax barítono), os renomados Pete Christlieb (sax tenor) e Gary Foster (sax alto), mais Don Shelton (clarinete) e Gene Cipriano (sax tenor).

Em quase todas as faixas, o solista mais em evidência é Gary Smulyan, 66 anos, eleito desde 2007 o número 1 do big sax nas votações dos melhores do ano promovidas, com críticos e leitores, pela revista Downbeat. E ele – que lançou também este ano o CD Smul's paradise (Capri), em quarteto com o organista Mike LeDonne – reafirma de modo notável o seu engenho e arte. Sobretudo nas duas peças mais conhecidas de Ellington; em Esquire swank (7m30), também do Duke; em Line up (6m30), de Paul Gonsalves; e na balada We're in love again (4m30), de Harry Carney.

Por outro lado, Ellington saxophone encounters é uma oportunidade única para reouvir os veteranos Pete Christlieb, 67 anos, e Gary Foster, 76, ainda em grande forma. O sax tenor do primeiro é realçado em Esquire swank, em Used to be Duke (3m40), de Johnny Hodges, e na balada Love's away (6m20), de Ben Webster. O sax alto de Foster tem destaque em The happening (4m05), de Gonsalves, e em Ultra blue (6m), de Jimmy Hamilton.

Um último parágrafo para registrar as intervenções de Don Shelton (clarinete) em Get ready (7m50) - composição do clarinetista Jimmy Hamilton (1917-1994), que tocou na instituição de Ellington durante 25 anos – e no dolente Peaches are better down the road (8m45) , um blues de Johnny Hodges. E também a performance no disco do original pianista Bill Cunliffe, cultor de raras harmonias e da assimetria rítmico-melódica de que o Duke foi pioneiro, ainda na década de 30.