Dave King lidera trio sem o "ruído" do Bad Plus 

No novo CD, baterista toca standards com Bill Carrothers (piano) e Billy Peterson (baixo) 

O formidável baterista Dave King, 42 anos, ficou famoso no início da década passada como o dínamo propulsor do hiperativo trio The Bad Plus, em associação até hoje estável e muito bem sucedida com o pianista Ethan Iverson e o baixista Reid Anderson. De These are the vistas (Columbia, 2003) ao recentíssimo Made possible (eOne, 2012) foram ao todo oito CDs muito ouvidos e comentados, que dividiram os críticos de jazz em dois grupos inconciliáveis. De um lado, os que curtiram o vanguardismo populista do inusitado combo, que elevou em muitos decibeis o “volume” do jazz trio, como se fosse uma banda de rock, mas sem perder de vista a arte da improvisação; do outro, aqueles que não aceitaram o combustível rítmico e a sonoridade decididamente pop do conjunto, ainda que os seus integrantes tocassem instrumentos acústicos (pelo menos inicialmente). Todos, no entanto, sempre concordaram que – individualmente – King, Iverson e Anderson são músicos fora de série.

Assim é que Dave King – o principal pomo dessa discórdia – resolveu exibir a sua “face oculta”, e demonstrar que é capaz de reunir e liderar, na condição de requintado percussionista, um trio de jazz para ninguém botar defeito. Guardadas as devidas proporções, ele quis provar estar apto a seguir as pegadas dos emblemáticos Paul Motian e Jack DeJohnette. E também que não é avesso ao uso do American songbook como matéria-prima para a criação jazzística.

Para isso, King convocou o eminente pianista Bill Carrothers e o baixista Billy Peterson - contemporâneos um pouco mais velhos e conterrâneos de Minneapolis - para gravar um pequeno disco muito especial, editado sob o título da última faixa: I've been ringing you (Sunnyside). A sessão teve lugar numa “pequena igreja em Minnesota”, em 13 de março último. A duração das oito faixas do CD é inferior a 40 minutos.

O trio é bem diferente do Bad Plus. E também não procura aderir àquele fluir interativo do magnífico e paradigmático trio Bill Evans-Scott La Faro-Paul Motian. Com todo o respeito que tem por Carrothers e Peterson, o percussionista King assume mesmo a condição de líder, não só na escolha do repertório de standards, como ainda num processo de sístole e diástole em que o delicado som das escovinhas nos címbalos e o estalar das baquetas nos snare drums se entremeiam surpreendentemente. Mesmo nas faixas mais “suaves” ou românticas – como Goodbye (5m05) e Autumn serenade (4m45) – o ativismo de King é marcante, com splashes feéricos aqui a acolá.

O pianismo de Carrothers é, como sempre, de uma “fluidez mais aérea do que líquida”, como escreveu Alex Dulith nas notas para o CD que ele gravou para a Pirouet, em 1999, em duo com o igualmente primoroso baterista Bill Stewart. Carrothers é um mestre do abstracionismo melódico, capaz de raras invenções melódico-harmônicas, como atesta, particularmente, a recriação tangencial que promove com King e Peterson de Lonely woman (5m15) - a mais bela das composições de Ornette Coleman. Ele é, sem dúvida, um cultor do jazz como “o som da surpresa”. 

O trio comandado pelo baterista noisy do Bad Plus conclui o álbum lançado pelo selo Sunnyside com a faixa-título (3m35) – a única que não se refere a nenhum standard, mas é um momento contemplativo dos três músicos reunidos na igrejinha de Minnesota.