Anat Cohen: A estrela que mais brilha no céu do jazz 

Em 1996, ainda teenager, a clarinetista-saxofonista Anat Cohen chegava a Boston para completar seus estudos no célebre Berklee College of Music. Três anos depois, ela iniciava, em Nova York, uma fulgurante carreira, como atesta a mais recente seleção dos melhores músicos do ano, promovida pela revista Downbeat, com 186 críticos do mundo todo, na qual a jazzwoman israelense foi eleita a número 1 entre os clarinetistas. No mesmo poll, ela foi ainda a mais votada, como saxofonista tenor, na categoria rising star (estrela em ascensão), à frente de Mark Turner, Marcus Strickland e outros renomados barbados.

A matéria de capa da edição de setembro da Jazz Times — a principal concorrente da DB — é dedicada a Anat Cohen, sob o título Swing dancer. Seu autor, Geoffrey Himes, destaca a “alegria desinibida e contagiante” que essa tecnicamente excepcional instrumentista de 34 anos transmite, sobretudo ao vivo, mas também na série de CDs que gravou para a sua etiqueta Anzic, como líder ou colíder.

Dentre os primeiros, destacam-se Clarinet work/Live at the Village Vanguard (2009), com Benny Green (piano), Peter Washington (baixo) e Lewis Nash (bateria), e Notes from the Village (2008), com Jason Lindner (piano), Omer Avital (baixo) e Daniel Freedman (bateria). Como colíder, ao lado dos seus também notáveis irmãos Avishai (trompete) e Yuval (sax soprano), Anat formou o sexteto 3 Cohens, e já lançou dois álbuns irresistíveis: Braid (2007) e Family (2011).

Na reportagem-entrevista da JT, ela fala do seu novo CD, Claroscuro (Anzic), com release previsto para o próximo dia 25, e que tem como base o quarteto com Lindner e Freedman, mais o baixista Joe Martin no lugar de Avital. Paquito D’Rivera (clarinete) e Wycliffe Gordon (trombone, vocal) atuam como ilustres convidados — o primeiro em quatro das 11 faixas, o segundo em duas.

A temática dessas faixas reflete o gosto melódico e a personalidade irrequieta de Anat que — para quem não sabe — tem uma queda toda especial pela música popular brasileira; aprendeu a falar português com a ajuda de seus colegas e amigos brasileiros que se radicaram nos Estados Unidos; e integra o grupo Choro Ensemble, com o qual já gravou o álbum Nosso tempo (Anzic, 2007).

Daí, não ser surpreendente que quatro temas de Claroscuro sejam do songbook brasileiro: As rosas não falam (6m), de Cartola; Olha Maria (6m05), de Tom Jobim; Um a zero (4m45), de Pixinguinha; e Tudo que você podia ser (7m40), de Lô Borges/Marcio Borges. 

As demais faixas são: Anat’s dance (6m45), de Jason Lindner; All brothers (8m50), Daniel Freedman; La vie em rose (6m20), Edith Piaf; Nightmare (4m20), Artie Shaw; And the world weeps (7m40), do organista Lonnie Smith; Kick off (2m40), da líder; The wedding (6m10), do pianista sul-africano Abdullah Ibrahim. 

Anat assim responde à indagação sobre a junção dessas peças aparentemente tão díspares num mesmo disco: “Todas elas têm belas melodias que são gostosas de tocar ou muito emotivas. Quando se sai de um show, a gente cantarola a melodia, e não as changes (base harmônica). O tema dá o tom para o que vamos tocar, nos dá a inspiração para o que vamos improvisar, e o que improvisamos é uma outra melodia”.

Ela só toca sax tenor na primorosa interpretação de The wedding e em And the world weeps (com a participação do clarinete de D’Rivera e do trombone de Gordon). Na breve Kick off (início de jogo), Anat se serve do clarinete baixo como abertura para a animadíssima reinvenção do choro de Pixinguinha, ao lado de D’Rivera (ambos no clarinete usual). Os dois improvisam ainda na faixa-homenagem a Artie Shaw. Em La vie em rose, Wycliffe Gordon usa a voz, imitando a famosa gravação da canção de Piaf por Louis Armstrong.