Brad Mehldau volta em disco à arte do trio 

Com a série The art of the trio — cinco álbuns da Warner gravados entre 1996 e 2001, dos quais três ao vivo, no Village Vanguard — Brad Mehldau consagrou-se como a grande figura surgida no panorama do piano jazzistico desde Keith Jarrett. Ao lado de Larry Grenadier (baixo) e Jorge Rossy (bateria), ele logo cativou os jazzófilos e os críticos mais exigentes com sua técnica espantosa, além de uma erudição musical — de Brahms a Bud Powell — destilada em progressões harmônicas sofisticadas de tonalidades várias, seja na interpretação de suas próprias composições seja na recriação de conhecidos standards.

O registro de despedida desse trio excepcional foi o CD House on hill (Nonesuch), lançado em 2006, mas, na verdade, com sete das faixas aproveitadas de uma sessão de estúdio de 2002, e apenas duas de março de 2005. Este disco, contudo, ocupa lugar de destaque na discografia de Mehldau por serem de sua pena todas as composições executadas com a assistência de Grenadier e Rossy, em faixas de duração média em torno de sete minutos.

Agora, neste início de ano, depois do grande sucesso do concerto solo de 2006, Live in Marciac (CD duplo mais DVD), a Nonesuch lançou Ode — o primeiro álbum em estúdio do trio de Mehldau desde que o ainda mais dinâmico baterista Jeff Ballard substituiu o espanhol Rossy, que voltou à sua Barcelona natal.

Nas notas da nova obra, Mehldau explica que as 11 peças selecionadas, todas de sua autoria, são tributos a pessoas ou personagens pelas quais nutre especial afeto, embora revele que costuma intitular suas composições, geralmente, bem depois de tê-las escrito. Oito foram gravadas em novembro de 2008, e as três mais recentes em abril do ano passado (26, Stan the man e Aquaman).

O álbum — mais uma envolvente e brilhante réussite da arte do trio jazzístico — começa com M.B (7m45), dedicada ao saxofonista Michael Brecker (1949-2007), cujo espírito “está na harmonia da peça, nos contornos da melodia, e no relativamente forte calor da performance”, conforme o próprio autor.

O clima da maioria das faixas é bem aquecido pela cada vez mais independente mão esquerda do pianista (ou pelos cruzados da direita) e pelo interplay fluente de Ballard e Grenadier, sobretudo em Ode (6m20), 26 (7m50), Aquaman (4m45) e Stan the man (5m20) — esta de andamento vertiginoso.

A meu ver, os highlights deste CD imperdível são: Dream Sketch (7m25), uma obra-prima de artesanato musical, em que é impossível descobrir o que é escrito e o que é improvisado; Twiggy (5m40), “uma ode à alegria que tenho experimentado com minha mulher Fleurine”, de acordo com Mehldau, que se casou com a cantora holandesa há alguns anos, e com ela gravou o álbum Close enough for love (Emarcy); Kurt vibe (4m50), com dedicatória para o guitarrista Kurt Rosenwinkel e um incrível diálogo entre as duas mãos do pianista.

São também “viagens” emocionantes as odes mais longas do disco: Eulogy for George Hanson (9m20), in memoriam da personagem vivida por Jack Nicholson em Easy rider, o cultuado road movie de Dennis Hopper-Peter Fonda, de 1969; e Days of Dilbert Delaney (9m), que Mehldau dedica ao filho Damien, e que “transmite a alegria e o assombro que senti quando ele surgiu em nossas vidas, e eu comecei a conhecê-lo”.