Francesco Cafiso: Vinho velho em garrafa nova 

A expressão old wine, new bottle (vinho velho em garrafa nova) é muito usada, quando o assunto é jazz, com viés depreciativo. Ou então para o anúncio de reedições remasterizadas ou mais apuradas de material fonográfico antigo que tenha alguma significação histórica.

No entanto, ela pode ser empregada também para qualificar recriações de temática ou de estilos aparentemente esgotados quando seus agentes são músicos de técnica, intuição criativa e inventividade bem acima da média. A garrafanova não precisa ser necessariamente muito diferente; mas o vinho velho tem de ostentar o selo de “denominação de origem controlada”, e ter repousado de tal maneira que não se tenha acidulado ou açucarado.

Este é o caso de Moody’n (Verve), o mais recente CD do prodigioso saxofonista alto italiano Francesco Cafiso, 22 anos, à frente do seu Island Blue Quartet — um quarteto sem bateria, integrado por Dino Rubino (trompete, flugelhorn), Giovanno Mazzarino (piano) e Rosario Bonaccorso (baixo).

A melhor parte do vinho selecionado por Cafiso é da safra excepcional dos quintetos Charlie Parker-Miles Davis de 1947-48, representada no disco por quatro peças-chave do florescer do bebop: a contrapontística Ah-leu-cha (5m10), o blues de tempero caribenho Barbados (6m) e a vibrante Steeplechase (5m45), todas de Parker; a envolvente Milestones (5m05), em seu formato original, de Miles Davis, o jovem.

O saxofonista-líder — que aos 12 anos já era famoso como menino-prodígio — escolheu ainda Strollin' (6m05), composição de Horace Silver surgida em 1960, no LP Horace-scope (Blue Note), e Whisper not (5m50), de Benny Golson, tratada com a reverência que merece um dos mais encantadores temas do jazz moderno, com Rubino no flugelhorn.

As outras quatro faixas do álbum são originais de Cafiso. A faixa-título — uma homenagem ao seminal tenorista bop James Moody (1925-2010) — é um duo, em velocidade vertiginosa, do saxofonista com o baixista Bonaccorso, respeitado jazzman europeu. Mr. Knom’s hat (4m40) é um tema evidentemente monkiano (Knom é Monk ao contrário) e, portanto, de arquitetura rítmico-harmônica assimétrica.

Secret ways of inviolable beauties (7m15) é também o que promete o título: peça delicada, de rara beleza, introduzida pelo cristalino piano de Mazzarino. In a ghost way of love (5m55), a outra balada do CD, tem clima mais noturno (ou soturno) e concepção camerística, interpretada pelo descendente estilístico de Charlie Parker-Phil Woods em contraponto com o flugel de Dino Robino.

No Festival Tudo é Jazz, em 2006, Francesco Cafiso, então com 17 anos, arrebatou corações e mentes de quem foi a Ouro Preto, e o set do seu quarteto se mostrou à altura das apresentações dos outros grupos de elite do jazz contemporâneo programados, como o quinteto de Dave Holland e o Trio Band Wagon, de Jason Moran. Naquela ocasião, saía o seu festejado CD Happy time (CamJazz), gravado em 2005, contendo nada menos do que oito composições do garoto-líder.

Cinco anos depois, ele confirma a condição de imbatível no seu instrumento dentre os especialistas surgidos nos últimos 10 anos. Não só em matéria de técnica, mas também de domínio do léxico desenvolvido, a partir de Charlie Parker, por Julian Cannonball Adderley, Jackie McLean, Phil Woods, Art Pepper, Richie Cole, Donald Harrison, Kenny Garrett e Geg Osby.

Todos eles certamente são santos do oratório do garoto siciliano que, de repente, aos 12 anos, começou a soprar o sax alto como gente grande. Como anotou Nicholas Mondello, ao comentar Moody’n, Cafiso exibe, ao mesmo tempo, “o bravado de um jovem e refinada maturidade musical bem acima de sua idade”.