Os irmãos Cohen começam o ano na capa da ‘Downbeat’ e com CD novo  

Os três irmãos Cohen estão na capa da revista Downbeat deste primeiro mês do Ano Novo. Avishai (trompete), 33 anos, Anat (clarinete e sax tenor), 36, e Yuval (sax soprano), 38, nasceram, cresceram e estudaram em Tel Aviv, Israel. Graduaram-se depois no afamado Berklee College of Music, de Boston, e são novaiorquinos há mais de 12 anos. Eles gozam de sólida reputação não só nos Estados Unidos e em Israel, mas também em todos os países onde se apresentaram, com o sexteto 3 Cohens, em festivais de jazz, inclusive no Brasil (Festival Tudo é Jazz, Ouro Preto).

No mais recente poll anual dos críticos promovido pela DB, Anat foi a mais votada na categoria dos clarinetistas, derrotando Don Byron e Ken Peplowski; Avishai chegou em terceiro na divisão dos trompetistas em ascensão (rising stars), atrás de Ambrose Akinmusire e Cuong Vu, mas à frente de Jeremy Pelt e Christian Scott.

A reportagem-entrevista de Dan Ouelette na citada edição da DB começa assim: “Química. Alquimia. Telepatia. Todas são palavras apropriadas para descrever a transcendental qualidade de improvisação de uma banda com duradouras credenciais pessoais”.

A banda em questão, com os três irmãos criando, na linha de frente, suas próprias peças ou recriando jazz tunes inesquecíveis, tem a participação inestimável de Aaron Goldberg (piano), Matt Penman (baixo) e Gregory Hutchinson (bateria). E o terceiro CD da irmandade, o recém-lançado Family (Anzic), gravado em abril último, mais do que confirma a alta qualidade da música registrada, em 2007, no álbum Braid, do mesmo selo (também com Goldberg, mas com Omer Avital, no baixo, e Eric Harland, na bateria).

O novo disco dos 3 Cohens tem 10 faixas, das quais cinco originais — três de Avishai e duas de Yuval. As outras cinco são versões com enfoques bem originais das seguintes joias da temática jazzística: The mooche (7m15), de Duke Ellington; Do you know what it means to miss New Orleans? (7m20), a canção celebrizada por Louis Armstrong; Tiger rag (4m05), relíquia de 1917 da Original Dixieland Jass Band, de autoria também reivindicada por Jelly Roll Morton; On the sunny side of the street (5m10), tema que “todo mundo” tocou e cantou, de Armstrong a Dizzy Gillespie, de Lionel Hampton ao Manhattan Transfer; Roll’ em Pete (5m), lançada pela dupla Big Joe Turner-Pete Johnson, há mais de 70 anos, e orquestrada por Count Basie.

Nestas duas últimas faixas, o macróbio Jon Hendricks — que fez 90 anos em setembro, e foi um dos gênios do vocalese bop, juntamente com Eddie Jefferson — aparece como very special guest. Nas notas do CD, os Cohens escreveram: “A ideia de gravar com o grande Jon Hendricks surgiu depois que o encontramos no Brasil, em 2010, quando Jon deu uma canja com a nossa banda”. (Foi no Festival de Ouro Preto, e testemunhamos o breve encontro, agora renovado e perpetuado).

A faixa-título (Family), de Avishai, de pouco mais de 5 minutos, é uma pungente melodia, desenvolvida em interplay pelos três sopros, com pontuações suaves dos pratos de Hutchinson e do piano de Goldberg. Segundo os irmãos, todo o álbum é dedicado a seus pais — Bilha e David — graças aos quais “a música é nossa paixão e nossa vida”. O trompetista assina também Shufla de shufla (6m35) — em allegro vivace bem groovy (2/4), com tema que remete a Horace Silver — e With the soul of the greatest of them all (9m30) — dedicada a Charles Mingus, com destaque para o sax soprano de Yuval, e uma conclusão polifônica irresistível, na base daquele “caos organizado” mingusiano, é claro.

A primeira das peças de Yuval tem o longo título de Blues for Dandi’s orange bull chasing an orange sack (7m40), começa em ritmo lento, em trio, até os 2 minutos, e vai crescendo em velocidade, com os irmãos solando e depois trocando compassos na parte final com o baterista, numa confabulação extraordinária. A segunda, Rhapsody in Blake (4m20), parte de um fugato parkeriano, seguido de um solo também tipicamente bop de Goldberg que, por sua vez, lança Anat (sax tenor), Yuval e Avishai num vertiginoso triálogo.

Anat só exibe o seu clarinete fora de série nas recriações das peças mais “clássicas” (The moocheRoll’ em Pete e Tiger rag). Mas, no sax tenor, ela se afirma, cada vez mais, como integrante do “primeiro time” dos especialistas no instrumento inventado por Adolphe Sax, em 1840, e reinventado, 100 anos depois, por Coleman Hawkins e Lester Young.