Premiê da Nova Zelândia concilia filha e trabalho

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, retornou ao trabalho ontem depois de uma licença maternidade de seis semanas. Ela é a segunda chefe de governo a dar a luz durante o mandato em todo o mundo, algo que até o fim de junho era restrito à paquistanesa Benazir Bhutto, que teve uma filha no exercício do cargo de premiê em 1990. A conciliação entre o trabalho e a maternidade é apenas mais um detalhe da trajetória singular de Ardern, que chegou ao poder do segundo maior país da Oceania aos 37 anos abraçada em bandeiras do feminismo e da diversidade. Ele é a mulher mais jovem do mundo a governar um país na atualidade. 

A premiê deu a luz em um hospital público e anunciou aos neozelandeses que estava grávida pelo Instagram. Seu marido, Clarke Gayford, de 40 anos e apresentador de TV e jornalista, pediu demissão para cuidar da criação da primeira filha do casal, batizada de Neve Te Aroha Ardern Gayford. O nome “Neve” deriva do irlandês Niamh, que significa “radiante”, enquanto “Te Aroha” deriva do maori, língua dos povos tradicionais neozelandeses e pode ser traduzido como “amor”, e é também o nome de uma montanha próxima à cidade natal de Ardern, Hamilton, ao sul da capital Auckland. Neve nasceu na mesma data que Benazir Bhutto, que agora compartilha com sua mãe a vanguarda da maternidade nas chefias de governo. Em uma entrevista durante a campanha das eleições de 2017, ela chegou a ser questionada sobre a possibilidade de ter filhos durante o mandato, e, em resposta, condenou que mulheres sejam postas em segundo plano no mercado de trabalho por conta da maternidade.

Ao retornar ao ofício de primeira-ministra, Ardern agradeceu as mensagens de apoio que recebeu no hospital e se disse surpresa com o suporte de pessoas de outros países. Em tempos onde a liderança feminina é pauta em diversos países do mundo, a conciliação entre as responsabilidades materna e o trabalho é um tabu. Outras mulheres ao redor do mundo, como Angela Merkel, Theresa May, Michelle Bachelet e Dilma Rousseff, chegaram ao poder depois dos 50 anos. A premiê neozelandesa, por outro lado, foi eleita antes dos 40. 

Ao atribuir a criação da filha ao marido para manter seu trabalho, Ardern manda um claro sinal de novos tempos na política, reflexo do posicionamento progressista defendido na sua campanha. Sua rápida ascendência lhe rendeu a expressão “Jacindamania”, uma referência ao entusiasmo do eleitorado, em especial dos setores jovens, com sua plataforma a favor da descriminalização do aborto e da igualdade de gênero e políticas pró-LGBT. Ela, que frequentava a Igreja Mórmon, deixou a instituição por conta de posições que considerou homofóbicas e, hoje, se declara agnóstica. Pela popularidade que sua candidatura ganhou pelas ruas neozelandesas e até mesmo fora do país, foi comparada com o premiê canadense, Justin Trudeau, e o presidente francês, Emmanuel Macron, ambos jovens e de linhas progressistas. A euforia foi suficiente para garantir o primeiro governo do Partido Trabalhista, onde milita desde os 17 anos, desde 2008.

Ardern fez um pedido para que a privacidade da filha seja respeitada nas instalações do parlamento, onde passará a maior parte do tempo com os pais. Neve terá uma agenda atribulada já no próximo mês, quando viaja a Nova York com o casal para a Assembleia Geral das Nações Unidas.

* Com supervisão de Denis Kuck