Chile tem 158 membros da Igreja Católica investigados por abuso sexual

Um total de 158 membros da Igreja Católica chilena - entre bispos, padres e laicos - são investigados como autores ou acobertadores de abusos sexuais contra menores e adultos que se estenderam por quase seis décadas, segundo uma lista revelada pela Procuradoria Nacional.

De 1960 até agora, a promotoria tem conhecimento de 266 vítimas - sendo 178 meninos, meninas e adolescentes - que sofreram abusos sexuais de membros da Igreja católica chilena, instituição que vive uma de suas piores crises desde a visita ao país do papa Francisco, em janeiro passado.

Outras 31 vítimas são adultas e "58 sem especificação, relacionadas a casos notificados" antes da vigência da Reforma do Processo Penal (RPP), que começou a operar no Chile no ano 2000.

"Em sua maioria, os fatos denunciados correspondem a crimes sexuais cometidos por sacerdotes, párocos ou pessoas vinculadas a estabelecimentos educacionais", aponta o cadastro entregue nesta segunda-feira (23).

O Ministério Público explicou que foram incluídos no levantamento todos que faziam parte do clero no momento da prática dos crimes - bispos, padres ou presbíteros e diáconos -, bem como "pessoas pertencentes à vida consagrada", ou seja, "freiras, monges, frades e religiosos".

O cadastro também inclui "laicos que exerciam alguma função na esfera eclesiástica", como os coordenadores das áreas pastorais das escolas.

Dos investigados, 74 não pertencem a nenhuma congregação religiosa, enquanto 65 são, em sua maioria, membros dos salesianos e maristas.

A investigação também identifica 10 laicos.

Atualmente, existem 36 investigações em andamento com processos pendentes e 108 já foram concluídas. Em 23 dos casos houve condenações e um caso terminou em absolvição.

- Segredo -

Para organizações, trata-se, no entanto, da ponta do iceberg.

"O trabalho feito pela procuradoria sem dúvida é muito positivo e está começando a abrir as portas para situações que antes eram tratadas como segredo", comentou à AFP Juan Carlos Claret, de um grupo de laicos do município de Osorno, no sul do Chile, que se opôs à nomeação nesta cidade do bispo Juan Barros.

Segundo Claret, em 2007 a Conferência Episcopal Chilena já sabia de pelo menos 120 sacerdotes envolvidos em casos de abusos sexuais. Por isso, na sua opinião, o número informado pela procuradoria nesta segunda-feira ainda é pequeno.

"Há informação que ainda está sob sigilo", acrescenta Claret, uma das lideranças nas denúncias de abuso sexual no país, que abalam a Igreja Católica e provocaram uma total reestruturação do clero local por parte do papa Francisco.

Para a Igreja chilena todos os antecedentes já estão sobre a mesa. De acordo com seus próprios registros, desde o ano de 2002 até o final de junho, são 43 os clérigos condenados - tanto pela justiça civil como a canônica - por abuso sexual a menores de idade.

"Aqui não há apenas uma grave contradição, há também uma grave traição na fé depositada por gente que acredita na Igreja, em Deus e seus ministros", reconheceu o porta-voz da Conferência Episcopal, Jaime Coiro, em coletiva de imprensa.

"Estamos diante da expressão em números de uma realidade que, assim como envergonha o papa, também envergonha a Conferência Episcopal", acrescentou Coiro, ratificando a disposição da Igreja chilena em colaborar com a Justiça.