Duque x Petro: as propostas que dividem os eleitores na Colômbia

Eles diferem praticamente em tudo, mas quatro são os temas que marcam bem a diferença entre Iván Duque, candidato da direita, e Gustavo Petro, ex-guerrilheiro de esquerda, antes do definitivo duelo de domingo pela presidência da Colômbia.

1) Pacto de paz

A Colômbia elegerá entre os dois polos ideológicos e o fará ao final de cinco décadas de luta com as guerrilhas das Farc, que assinaram a paz e desarmaram 7.000 guerrilheiros para fazer política.

Mas o pacto de paz - rejeitado pela metade dos colombianos em um referendo no ano passado - semeia a discórdia.

Duque, herdeiro político do ex-presidente Álvaro Uribe e favorito nas pesquisas depois de vencer no primeiro turno com 39,1% dos votos, quer modificar o acordo para que os ex-chefes rebeldes acusados de crimes hediondos paguem na Justiça e fiquem inelegíveis ao Congresso.

"Haverá modificações que permitam uma paz concreta, sustentável e calcada na Justiça", afirma.

Agora, o acordo garante ao novo partido Farc uma pequena representação de dez cadeiras pelo período de quatro anos.

Em compensação, Petro, ex-guerrilheiro do desmobilizado M-19 e que obteve 25% nas eleições de 27 de maio, quer honrar a palavra e aprofundar a paz mediante uma bateria de reformas.

"Acabar com uma guerra implica uma reforma em temas de terra, educação, saúde, aparato judicial e regime político", assinala.

A direita já tem assegurada maioria no Congresso, o que daria margem de manobra para Duque.

"Petro vem de um processo de paz relativamente bem-sucedido, e essa é sua perspectiva, enquanto que o setor que representa Duque, apesar de agora negar que vá mexer com o acordo, é abertamente contrário", afirma Fabián Acuña, da Universidade Javeriana.

2) Drogas

A Colômbia é o primeiro produtor de cocaína do mundo. Até 2016, tinha 146.000 hectares de narcocultivos, segundo a ONU.

Duque rejeita legalizar o consumo para acabar com o negócio multimilionário, propondo, inclusive, abolir o porte e a dose mínima autorizados desde 2009.

"É preciso voltar a penalizar, mas não criminalizar", assinala.

Também descarta retomar a dispersão aérea com um pesticida diferente do glifosato, proibido desde 2015 para esse uso por possíveis efeitos nocivos para a saúde.

O atual governo oferece incentivos econômicos para quem, de forma voluntária, substituir os cultivos, como parte dos compromissos de paz.

Petro propõe incentivar o debate internacional sobre o fracasso da luta antidrogas e dar terras para que os camponeses que cultivam coca tenham incentivo para desistir dessa plantação.

Também privilegiará o tratamento médico para os consumidores. "Relacionar o jovem com os centros de reabilitação, não com a Polícia", explicou.

3) Modelo econômico

Duque, amigo do livre-mercado e do investimento privado, prefere um Estado enxuto e austero. "Vamos reestruturar o Estado para eliminar o desperdício e os gastos desnecessários", afirma.

É um defensor de uma economia que estimula a inovação em uma ampla gama de atividades. Também prevê baixar impostos das empresas para que gerem mais empregos e melhores salários, além de manter a mineração dentro dos altos padrões ambientais.

Já Petro, convencido da ameaça da mudança climática, propõe acabar com a dependência do petróleo e com a mineração (que representam 7% do PIB).

"A ideia é transitar para uma economia produtiva, agrária, industrial", explica. Nesse sentido, quer substituir a energia fóssil pela solar.

Sua proposta de tributar latifúndios improdutivos fez seus críticos reavivarem o fantasma das desapropriações, as quais relacionam com o chavismo na Venezuela.

O impacto foi tão grande que Petro precisou garantir, em um manifesto público, que não desapropriará nada e que promoverá a iniciativa privada, o empreendimento e a formalização trabalhista.

"O colombiano médio é conservador, e isso o impede de considerar um governo de esquerda que não seja automaticamente marxista, ou comunista", assinala Felipe Botero, da Universidade Los Andes.

4) Venezuela

A Venezuela esteve presente nesta campanha. A Colômbia, que desconhece a reeleição de Nicolás Maduro, enfrenta sua maior onda migratória: 762.000 venezuelanos chegaram fugindo da crise econômica nos últimos dois anos.

Petro, que já foi ligado ao falecido Hugo Chávez, tomou distância de Maduro e questiona a transparência de sua reeleição.

Sem aprofundar, propõe uma pressão diplomática para que a Venezuela retorne ao sistema interamericano de direitos humanos da OEA.

Na direção contrária, Duque descreve o governo Maduro como uma ditadura e pretende denunciá-lo ao Tribunal Penal Internacional (TPI) junto com outros governos.

Também quer tirar a Colômbia da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) por considerá-la cúmplice desse governo.

Os dois candidatos expressaram sua intenção de continuar acolhendo imigrantes e refugiados.

"A relação com a Venezuela vai ser problemática. Duque continuará com o confronto, e Petro poderá se aproximar desse governo, que é muito complexo", avalia Botero.

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