G7 assume luta ao protecionismo, mas isola Trump sobre clima

O comunicado final da cúpula do G7 em Charlevoix, no Canadá, prega a continuação do combate ao protecionismo comercial, após a reunião ter ficado marcado pela divisão entre os Estados Unidos e os outros membros sobre tarifas de importação.

Além dos EUA e do Canadá, o grupo é formado por Alemanha, França, Itália, Japão, Reino Unido e União Europeia e encerra seu encontro anual fragilizado pelas desavenças internas, apesar de os líderes terem conseguido evitar o fracasso de não produzir uma declaração conjunta.

"Salientamos o papel crucial de um sistema comercial internacional fundado sobre regras e continuaremos a combater o protecionismo", diz o texto. O G7 também se compromete a "modernizar" a Organização Mundial do Comércio (OMC), principal ente multilateral para questões comerciais e dirigida pelo brasileiro Roberto Azevêdo.

O objetivo é torná-la "o mais justa possível". "Nós faremos todo o possível para reduzir as barreiras tarifárias, as barreiras não-tarifárias e os subsídios", acrescenta a declaração, que ainda faz referência à Rússia, outro ponto divisivo na cúpula do G7.

Trump chegara à Charlevoix pedindo a volta do país ao grupo e logo contou com o apoio do novo premier italiano, Giuseppe Conte, rapidamente encoberto pelas nações da União Europeia, que fizeram com ele uma série de reuniões e expressaram uma opinião conjunta: Moscou só pode voltar quando a situação na Ucrânia se estabilizar.

Na declaração final, o G7 pede para a Rússia parar de "minar os sistemas democráticos", uma referência direta às denúncias de interferências de Moscou em processos eleitorais no Ocidente, dos EUA à França, passando pelo plebiscito do "Brexit".

"Se suas ações o exigirem, estamos prontos a adotar novas medidas restritivas para aumentar os custos para a Rússia", afirma o documento, assinado inclusive pela Itália, cujo novo governo colocou em seu programa o objetivo de derrubar as sanções contra Moscou.

No entanto, como já havia ocorrido no G7 de Taormina, na Itália, no ano passado, os países não chegaram a um consenso sobre o clima. O trecho referente a questões ambientais não foi assinado pelos Estados Unidos, que, sob o governo Trump, também abandonaram o Acordo de Paris.

"Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e União Europeia reafirmam seu forte empenho em implantar o Acordo de Paris, por meio de uma ação ambiciosa para reduzir as emissões, enquanto se estimula as inovações", diz o texto.

"Sobre o clima, temos uma posição ambiciosa em seis, sem os Estados Unidos. Isso não é uma novidade", minimizou o presidente da França, Emmanuel Macron. "O G7 nos permitiu manter a união sobre todos os temas nos quais foi possível. Onde nossas ambições não eram compatíveis com a unidade do grupo, aceitamos as divergências", reforçou, no Twitter.

Protagonismo

Com suas ameaças de guerra comercial e declarações em defesa da Rússia, Trump protagonizou a cúpula de Charlevoix, embora tenha deixado a reunião antes do fim, para viajar a Singapura, onde se encontrará com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, na próxima terça-feira (12).

O presidente dos EUA chegou atrasado a reuniões, inclusive em uma sobre paridade de gênero, e fez pouco esforço para se mostrar confortável em um país com o qual vem encenando um embate político e ideológico na América do Norte.

O Canadá, governado pelo liberal Justin Trudeau, é um dos alvos da guerra comercial de Trump, assim como a China e a Alemanha, representada também na figura da União Europeia. Todos eles têm significativos superávits comerciais com os EUA.

Enquanto acontecia a cúpula, o chefe da Inteligência norte-americana, Dan Coats, dava uma palestra na qual acusava a Rússia de tentar "dividir" a aliança atlântica, ou seja, a OTAN.

O apoio a Trump veio do novato do G7, Giuseppe Conte, que defendeu a inclusão de Moscou e ganhou um convite para conhecer a Casa Branca.

Do lado do magnata, ele volta agora todas as atenções para a aguardada cúpula com Kim Jong-un, que reunirá dois líderes imprevisíveis, mas pode dar fim a mais de meio século de hostilidades.

Já os aliados do outro lado do Atlântico têm pela frente o encontro do Conselho Europeu, no fim de junho, para tratar das crises que polarizam os Estados-membros do bloco, como a reforma da Convenção de Dublin e a resposta adequada às tarifas alfandegárias dos EUA. (