Militares no poder, a rede que salvaguarda Maduro

Jogando por terra as previsões de uma queda iminente devido à profunda crise, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, disputará a reeleição no próximo domingo (19). Mas isso não teria sido possível sem o apoio dos militares.

Segundo analistas, um amplo poder político e econômico, supostos vínculos com crimes e o temor de uma caça às bruxas tecem essa rede de apoio, reforçada por contínuos juramentos de lealdade do alto comando.

A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) afirma defender a soberania de Venezuela da ingerência dos Estados Unidos que, segundo diz, busca, com aliados locais, se apoderar da maior reserva petrolífera do mundo.

- Poder crescente -

Embora a FANB já tivesse ampla participação no governo do falecido tenente-coronel Hugo Chávez (1999-2013), cresceu de 25% para 43,7% com Maduro, segundo a ONG Control Ciudadano.

De 32 ministros, 14 são militares e dirigem pastas como Defesa, Interior, Petróleo, Agricultura e Alimentação, além da petroleira PDVSA, que responde por 96% da receita do país.

A FANB controla a produção e a distribuição de alimentos - em severa escassez -, uma empresa petro-mineradora própria, uma emissora de televisão, um banco, uma montadora de veículos e uma construtora.

É um "governo militar (...) ou em todo caso um em que convivem civis e militares com preponderância militar", explicou à AFP Luis Alberto Buttó, especialista em temas militares.

Para o analista Benigno Alarcón, ao ver minguar seu eleitorado, Maduro decidiu conservar o poder "à força" e "comprar a lealdade" de quem o garanta. Oito em cada dez venezuelanos rejeitam sua administração, segundo a Datanálisis.

A Venezuela tem 365.315 militares, segundo a privada Rede de Segurança e Defesa da América Latina, e 500.000 milicianos civis.

O general reformado Clíver Alcalá, chavista crítico de Maduro, sustenta que a Venezuela só requer um quinto de seus 1.000 generais.

Desde 2003 foram detidos 92 militares acusados de conspiração (34 em 2018), segundo a ONG Justiça Venezuelana. Em março, Maduro rebaixou e expulsou 24 oficiais, a maioria presos ou exilados.

Uns dez mil homens pediram baixa desde 2015, calcula a Control Ciudadano.

- Na mira -

Uns 20 militares enfrentam sanções dos Estados Unidos, acusados de corrupção, violação dos direitos humanos e de socavar a democracia, inclusive o comandante do Exército, Jesús Suárez, e os ministros Néstor Reverol (Interior) e Carlos Osorio (Transporte).

O Canadá sancionou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, e a União Europeia impôs um embargo de armas.

A FANB apoiou Maduro durante os protestos para tirá-lo do poder em 2017, que deixaram 125 mortos e nos quais ONGs denunciaram uma "repressão brutal".

A Procuradoria investiga dezenas de militares de média e baixa patente por estas mortes e outros delitos.

Por trás do empoderamento aos militares haveria uma espécie de "chantagem", pois os torna vulneráveis a julgamentos, observa Alarcón.

"É como um barco que está afundando. As pessoas que mais vão cooperar para que não naufrague são as que não sabem nadar", afirma.

Alarcón considera que Maduro envolveu habilmente a FANB em "questões de difícil solução", como a crise econômica, tornando-a "parte do problema".

- Caça às bruxas -

Embora a FANB se declare "chavista", alguns oficiais apoiariam Maduro porque "sentem que sua liberdade e patrimônio dependem do governo" e que a oposição os perseguiria se chegasse ao poder, segundo Alarcón.

"Não há muita vontade de assumir o controle de uma situação tão desastrosa. E como aparentemente se beneficiam do status quo, por que não continuar apoiando Maduro? É conveniente para eles", comentou à AFP Michael Shifter, do Diálogo Interamericano.

Líderes opositores, como Julio Borges, asseguram que os temores da cúpula "travam" uma mudança de governo.

"Se não desatarmos esse nó, podemos passar décadas vendo o mesmo filme", afirmou o ex-presidente do Parlamento, que propõe uma "justiça transitória" para os oficiais envolvidos em crimes.

- Fora dos quartéis -

Mas não apenas os militares que apoiam Maduro. O máximo tribunal - que anula todas as decisões do Parlamento (única instituição opositora) -, a Procuradoria e o poder eleitoral são considerados de orientação chavista.

Ele também governa com uma Assembleia Constituinte de plenos poderes e totalmente governista, que desbancou o Legislativo.

"Quem o cerca fará qualquer coisa para manter seu poder e riqueza. Se perderem o controle, correriam o risco de ser processados", avalia Shifter.

Com uma poderosa máquina clientelista, Maduro também tem o caminho livre graças a uma oposição dividida e com vários líderes presos ou inabilitados.

axm/avs/mis/lda/mvv