Transferência de embaixada americana e confrontos em Gaza marcam 70 anos de Israel

Perseguido ao longos dos milênios, o povo judeu sobreviveu à Inquisição e ao Holocausto. Dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a tragédia nazista deu o empurrão que faltava para uma antiga bandeira, a criação de um Estado para os judeus: em 15 de maio de 1948, nascia Israel. Setenta anos depois, poucas vezes o aniversário do país foi celebrado em meio a um ambiente tão conturbado. Próximo à cerca na fronteira de Gaza, milhares de palestinos protestaram, mais uma vez, contra a ocupação israelense. Apenas ontem o resultado foi de 55 mortos. Em Jerusalém, os americanos inauguraram sua embaixada após polêmica transferência de Tel Aviv para a Cidade Santa. Medida celebrada por muitos em Israel, mas considerada um passo insensato por boa parcela da comunidade internacional, assim como para parte dos judeus que apoiam a solução de dois Estados para o conflito.

“Era menino em 1967, e lembro bem o clima de tensão que precedeu o ataque israelense na Guerra dos Seis Dias. Israel ainda não era uma potência, nem tinha o apoio dos Estados Unidos. O clima era de medo de destruição, quando o presidente egípcio ameaçou fechar o Golfo de Aqaba e bloquear os meios de abastecimento de Israel. Depois disso, tal medo voltou a se repetir na Guerra do Yon Kippur, em 1973. Desde então, não lembro de outros momentos conturbados como este”, recorda Sergio Storch, membro brasileiro do secretariado da J-Amlat (Judeus Progressistas da América Latina pela Paz).

Foi justamente após a Guerra dos Seis dias que Israel, enfrentada pelos países árabes, ocupou Jerusalém Oriental, Cisjordânia, Faixa de Gaza e as Colinas de Golã. Pelo plano da ONU, a partilha da região criaria o Estado judeu, a Palestina e Jerusalém seria uma cidade internacional, solução rejeitada pelos árabes em 1948. Embora Israel tenha anexado Jerusalém Oriental, a comunidade internacional não reconhece a soberania do país sobre a cidade. Por isso, as embaixadas se localizam em Tel Aviv. Apesar disso, o presidente americano, Donald Trump, anunciou em 2017 que a embaixada dos EUA seria movida para Jerusalém. 

A medida foi saudada pelo governo israelense do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em 1980, Israel proclamou Jerusalém capital “eterna e indivisível” do país. Para os árabes, Jerusalém Oriental deve ser a capital da Palestina. Países como Reino Unido, França, Alemanha, China e Rússia, além da União Europeia, condenaram a abertura da embaixada em Jerusalém. A transferência foi negada por 128 dos 193 Estados-membros da ONU. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, disse que o destino de Jerusalém “é um status final que deve ser resolvido por negociações diretas entre as duas partes”.

O presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Fernando Lottenberg, na época do anúncio de Trump sobre a mudança da embaixada, elogiou a iniciativa: “O povo judeu, ao longo dos séculos, nunca teve outra capital. A decisão de hoje reconhece essa realidade histórica, sem que isso signifique impedimento algum para se alcançar uma paz justa e duradoura na região”. Para o membro da J-Amlat não se pode invocar o direito de representar o pensamento de todos os judeus. “Não somos homogêneos, nem os israelenses, nem os judeus americanos. A posição da J-Amlat, assim como da esquerda israelense, é de que a mudança expressa a total irresponsabilidade do governo Trump em relação a uma solução negociada de dois Estados, pois sinaliza o apoio à anexação da Cisjordânia que está em curso por Israel, afastando ainda mais as perspectivas de paz entre israelenses e palestinos, que já esteve muito perto de ser alcançada”, afirma Storch.

Enquanto a filha de Trump, Ivanka, participava da inauguração da legação diplomática, ao lado de Netanyahu e outros representantes americanos, milhares de manifestantes protestavam na fronteira da Faixa de Gaza com Israel. Os palestinos vem organizando atos na cerca que separa os dois territórios há várias semanas, movimento chamado “Grande Marcha do Retorno”, que pede a volta dos palestinos forçados a deixar suas terras após 1967. Com pelo menos 55 mortos e mais de 2.400 feridos, o dia de ontem foi o mais violento desde o conflito armado de 2014 em Gaza. Israel diz que apenas se defende de invasores que querem entrar no país para cometer atos de violência.

“Israel está usando força excessiva, atirando em civis desarmados. A motivação mais profunda dos protestos é a crueza da vida em Gaza, onde o bloqueio de Israel é uma condenação à pobreza e à perda de uma geração. O povo de Gaza está correto em considerar que vive numa prisão a céu aberto”, afirma Storch. O alto comissário para os Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al-Hussein, disse que a “morte chocante de dezenas de pessoas e os centenas de feridos por tiros de munição real devem parar imediatamente, e os autores dessas violações flagrantes dos direitos humanos ser responsabilizados”. Os Estados Unidos culparam o grupo palestino Hamas, que controla a Faixa de Gaza, pelas mortes. Pelo Twitter, Trump afirmou que ontem foi um “grande dia para Israel”. Os EUA chegaram a bloquear uma resolução do Conselho de Segurança da ONU pedindo uma investigação independente sobre as mortes. Já o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, disse que a atuação do exército israelense foi um “massacre”.

Apesar de toda a polêmica e do sangue derramado, os judeus não deixam de celebrar os 70 anos de existência de Israel. “O Estado de Israel é, para a maior parte dos judeus, a saída histórica para uma trajetória extremamente dolorosa, de discriminação e perseguições na Europa cristã e no Oriente muçulmano, exceto períodos relativamente curtos em que houve tolerância e paz. Foi o sionismo que permitiu a construção desse porto seguro. Israel representa uma segunda cidadania possível para um povo que os traumas de séculos ensinaram que a volta das perseguições é sempre possível, e em qualquer lugar”, opina Sérgio Storch.