Ultradireita estabelece condições para governar com indignados italianos

O partido italiano de ultradireita Liga estabeleceu nesta segunda-feira (14) uma série de duras condições para formar um governo com os indignados do Movimento 5 Estrelas (M5E), dificultando a formação de um governo entre as forças antissistema.

Luigi Di Maio, o jovem líder do movimento antissistema M5E, e Matteo Salvini, o paladino xenófobo que transformou a Liga em uma força nacionalista, foram recebidos em separado no Palácio Quirinal, sede do Executivo, pelo presidente da República, Sergio Mattarella, para informar sobre o complexo estado das negociações.

Em tom otimista, o líder do M5E pediu alguns dias mais para formar um governo de coalizão com a ultradireitista Liga, pois não chegaram a um acordo sobre o programa e a identidade de seu futuro chefe.

"Como estamos escrevendo o que será o programa de governo para os próximos cinco anos, é importante para nós concluí-lo bem e, por isso, pedimos mais alguns dias", declarou Di Maio, após uma reunião de 45 minutos com Mattarella.

As declarações de Salvini depois do encontro com o presidente foram menos otimistas. Ele reforçou que ainda é preciso solucionar pontos importantes para alcançar um acordo de governo.

Em um tom duro e autoritário, Salvini lembrou que ambos tinham "visões distintas" sobre vários pontos-chave como a luta contra a imigração, os impostos, as relações da Itália com a União Europeia (UE), e a controversa lei de defesa própria.

"Se a Liga não tem as mãos livres neste aspecto, nada será feito. Se não pudermos fazer o que os italianos nos pediram, nos despediremos", advertiu.

Tanto Di Maio como Salvini admitiram que não chegaram a um acordo sobre o candidato a premiê e que por isso decidiram não falar sobre o tema com o presidente que, como a Constituição prevê, deve aprovar e designar o chefe do Executivo.

- Entre a ultradireita e os antissistema -

Em relação ao conteúdo do acordo de governo, a síntese não é simples entre a Liga, uma formação nacionalista ligada à Frente Nacional francesa, que conquistou o próspero e industrializado norte com a promessa de cortes maciços de impostos, e a formação antissistema, sensível aos problemas sociais do sul pobre da península, que prometeu um "salário cidadão" e que costuma ser ambivalente a respeito da União Europeia.

Algumas fontes asseguram que o complexo tema do "salário cidadão", cavalo de batalha dos indignados italianos, foi adiado para 2019, com a condição de criar um sistema eficaz de agências de emprego.

Outro assunto candente, a introdução do imposto único de 15%, que a Liga reivindica, também será proposto por representar uma carga excessiva para as contas públicas.

A Liga e o M5E aparentemente acordaram revisar gradualmente a controversa reforma das pensões de 2011 de forma a alterar a idade de aposentadoria e introduzir a fórmula "cota 100", isto é, a possibilidade de se aposentar quando a soma entre a idade e o tempo de contribuição chegar a 100 (por exemplo, 64 anos de idade e 36 de contribuição).

Encarar o fenômeno da imigração ilegal é um dos temas mais delicados entre as duas forças e suas visões são conflitantes.

A Liga, que usa tons xenófobos, exige medidas firmes, demasiadamente fortes para o M5E, segundo vários veículos.

Aparentemente, a Liga teria obtido a manutenção da construção de grandes obras, como a linha ferroviária Lyon-Turin, que o M5E sempre tachou de projeto inútil e inclusive prejudicial ao meio ambiente.

As declarações de Salvini foram interpretadas como o início da ruptura com o M5E e geraram muitas incógnitas sobre o futuro do país e irritação na base dos indignados.

O líder da ultradireita lembrou, ainda, que a aliança com seu ex-parceiro Silvio Berlusconi não se rompeu, o qual acaba de ser reabilitado e pode exercer cargos públicos, e que representa 12 milhões de italianos, isto é, toda a coalizão de direita, que obteve 37% dos votos.

O M5E, que obteve sozinho esmagadores 32%, se nega a pactuar com a coalizão do magnata e prefere se entender sozinho com a Liga, que conta com 17%.