Número de ultraortodoxos aumenta nas colônias israelenses

Nas ruas de Beitar Illit, a maioria dos homens se vestem de preto com camisa branca, uma vestimenta mais comum nos bairros ultraortodoxos da vizinha Jerusalém, mas cada vez mais difundida nas colônias israelenses em território palestino.

Com mais de 56.000 habitantes, Beitar Illit é uma das duas colônias mais populosas da Cisjordânia, um território palestino ocupado pelo Exército israelense há mais de 50 anos.

A grande maioria dos habitantes são ultraortodoxos, isto é, judeus que seguem as regras do judaísmo à risca. Os homens usam roupas pretas e as mulheres vestidos longos, além de cobrirem as cabeças. As famílias geralmente são grandes, algo que consideram um dever.

Não há cinema e a agitação e o trânsito param na sexta-feira para o sabat.

Beitar Illit, criada em 1980 em terras de uma aldeia palestina, e Modiin Illit (oeste de Ramallah, com mais de 70.000 habitantes) se distinguem da maioria dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, que tendem a ser mais laicos, mas também mais ideológicos.

Beitar Illit ilustra uma evolução demográfica que levanta questões sobre a identidade futura do Estado de Israel, que este ano celebra sete décadas.

Essa dinâmica, alimentada pela fertilidade dos ultraortodoxos, é notória na Judeia e Samaria, o nome bíblico da Cisjordânia. Os ultraortodoxos representam 10% da população israelense, mas são um terço da população dos colonos.

- Crise habitacional -

"A população de Beitar Illit só aumenta", proclama o site da prefeitura, anunciando uma média de 40 partos por semana, ou 2.000 por ano.

A este ritmo, Jerusalém ameaça tornar-se um subúrbio de Beitar Illit, brincou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu durante uma visita em 2017.

Cinquenta anos após o início da colonização israelense, os ultraortodoxos não escolhem Beitar Illit para povoá-la como outros colonos nacionalistas e religiosos de outras colônias que violam o direito internacional e ignoram as reivindicações palestinas.

"A razão pela qual as pessoas se instalam aqui é a crise habitacional. Uma família ultraortodoxa, se puder viver em outro lugar não virá para cá como primeira escolha", diz Moshe Glasner, porta-voz da prefeitura.

As razões econômicas prevaleçam sobre as religiosas e comunitárias.

Para Binyamin Kluger, de 45 anos e morador há sete anos, "é o lugar ideal para viver como um judeu religioso".

O direito internacional considera a colonização ilegal. Grande parte da comunidade internacional a enxerga como um obstáculo para alcançar a paz entre israelenses e palestinos.

- Boas relações -

Entre a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, mais de 600.000 colonos israelenses coabitam com quase três milhões de palestinos em um relacionamento tenso.

Os judeus de Beitar Ilit alegam ter boas relações com os palestinos. Embora o porta-voz da prefeitura afirme que o lançamento de pedras contra carros israelenses é frequente.

Yoram Cohen, um comerciante que mora na colônia há 18 anos, garante trabalhar em "harmonia" com seus funcionários palestinos.

"Basta vir aqui para ver como trabalhamos juntos e perceber que é diferente da imagem habitual nas colônias", diz ele.

Cerca de 1.500 palestinos trabalham diariamente em Beitar Illit sem o menor incidente, diz o porta-voz da prefeitura.

Segundo Nadav Shragai, pesquisador do Centro de Assuntos Públicos e Estaduais (CAPE), o grande número de ultraortodoxos entre os colonos é o sonho realizado por aqueles que iniciaram a colonização.

"Quando os ideólogos fundaram os assentamentos nesses territórios, esperavam que a população passasse a representar todas as áreas da sociedade e é isso que acontece", afirma.

Hagit Ofran, do movimento de anticolonização Paz Agora, afirma que os ultraortodoxos são pouco inclinados a se opor à busca da paz com os palestinos.

Beitar Illit faz parte das colônias com poucas chances de ser evacuada por Israel em caso do país concordar em fazer concessões para encontrar uma saída para o conflito com os palestinos.

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