Agenda abrangente e ausência de Trump e Maduro enfraquecem Cúpula das Américas

A oitava Cúpula das Américas, evento mais importante da Organização dos Estados Americanos (OEA), abre suas portas hoje, em Lima, capital do Peru, para 33 países e mais de 20 chefes de Estado do continente americano sem grandes expectativas por parte de analistas e convidados. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não comparecerá à reunião. Outra grande ausência será a do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que não foi convidado. Pelo menos seis lideranças esperadas devem deixar o poder neste ano, graças ao intenso ciclo eleitoral da América Latina em 2018. O debate sobre a crise venezuelana, às vésperas da controversa eleição presidencial do país, também não reúne muitas esperanças. Esses fatores devem enfraquecer a agenda política da conferência. 

No centro do debate está o combate à corrupção. O continente latino-americano foi assolado por grandes escândalos. As investigações em torno de propinas pagas pela empreiteira brasileira Odebrecht derrubaram Pedro Pablo Kuczynski da presidência do Peru, e mandaram o ex-presidente Ollanta Humala para a cadeia. No Equador, o vice-presidente Jorge Glas foi parar na prisão, e o presidente do Congresso José Serrano foi destituído. As delações também atingem Panamá e El Salvador, e as investigações avançam na Bolívia. Na Venezuela, a oposição acusa o Judiciário de blindar o presidente Maduro de inquéritos. No Brasil, escândalos de outra empreiteira, a OAS, levaram o ex-presidente Lula à prisão, e o presidente Michel Temer é alvo de diferentes frentes de investigação. 

É diante desse cenário que os chefes de Estado debaterão sobre o tema. Segundo Thauan Santos, professor da Escola de Guerra Naval (EGN), o encontro está fadado ao fracasso. “A Cúpula de 2015 teve muito sucesso por conta da reaproximação de Obama com Cuba, um evento histórico. Esperava-se que a seguinte fosse minimamente capaz de tocar em temas sensíveis e necessários, mas, ao invés disso, foram pautados problemas domésticos como a corrupção em uma agenda regional”, diz. Para o acadêmico, a reunião já começa desacreditada pela presença de países imersos em escândalos no debate, incluindo o próprio anfitrião, e pela crise democrática que vive o continente desde 2009, com a queda do governo de Manuel Zelaya, em Honduras, e em 2012 com a destituição de Fernando Lugo, no Paraguai.  

Será a primeira vez que um presidente dos EUA não comparecerá a uma Cúpula das Américas, que costuma ocorrer de três em três anos. Trump, que ainda não visitou a América Latina como presidente, será representado pelo seu vice, Mike Pence. “Não há grande expectativa também pela ausência de grandes personagens, como Trump e Maduro. A ausência do presidente dos Estados Unidos em uma cúpula regional prevista há três anos por um fato inesperado na Síria é injustificável. A liderança dos EUA não está olhando para seu entorno geográfico por fatores geopolíticos, como o petróleo”, afirma Santos em referência à crise na Síria. O professor também lembra que presidentes próximos ao fim do mandato dificultam a ratificação de acordos. 

Por outro lado, Santos lembra que, com a predominância de governos de centro-direita na América do Sul, há certa harmonia no discurso dos países da região, voltado para a diminuição de pautas regionais, como o Mercosul, em prol de acordos multilaterais, com, por exemplo, a União Europeia. “Isso explica a agenda tão abrangente”, resume.  

*Estagiário sob supervisão de Denis Kuck