Uma diplomacia em crise às vésperas da histórica cúpula Trump-Kim

Donald Trump vai se preparar para um desafio de alto calibre: a histórica cúpula com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, no momento em que sua equipe diplomática está mergulhada no caos com a abrupta saída de Rex Tillerson do Departamento de Estado, onde vários postos-chave continuam vazios.

"Tillerson era favorável a conversas com a Coreia do Norte, e o presidente, ao aceitar fazer isso, está fazendo, de certo modo, o que o secretário sempre promoveu", disse o ex-embaixador Stapleton Roy em conversa com jornalistas em Washington, nesta quinta-feira (15).

E isso, mesmo depois de Donald Trump já ter desprezado publicamente os esforços de negociação de seu secretário com Pyongyang sobre os programas nuclear e balístico da Coreia do Norte.

Na semana passada, por exemplo, em sua última viagem ainda no cargo, Rex Tillerson - partidário de uma diplomacia convencional que se contrapõe a um presidente inclinado a mostrar os "músculos" dos EUA, ameaçando "destruir totalmente" a Coreia do Norte - se gabava de poder "criar as condições para negociações bem-sucedidas entre duas partes muito diferentes".

"Todo o mundo sabia das diferenças de opinião entre Trump e Tillerson. Isso minou a capacidade de Tillerson de representar o presidente como secretário de Estado", avaliou o diretor do programa Ásia do "think tank" Wilson Center, Abraham Denmark.

O sucessor escolhido por Trump, o diretor da CIA (a Agência Central de Inteligência), Mike Pompeo, que parece estar alinhado com o magnata republicano, pode acabar sendo, portanto, "um negociador mais crível frente aos norte-coreanos", acrescentou.

O tempo urge, porém.

A Casa Branca justificou a demissão de Tillerson pela necessidade de que Trump tenha "sua nova equipe pronta antes das discussões com a Coreia do Norte" - um encontro sem precedentes que deve acontecer no final de maio.

A indicação de Pompeo não poderá ser confirmada pelo Congresso antes de abril. Até lá, o subsecretário de Estado, John Sullivan, que não tem envergadura política, ficará interinamente à frente da pasta.

- Departamento esvaziado -

À sua volta, não há muita gente com quem contar.

A secretária de Estado adjunta para o Leste da Ásia, Susan Thornton, ainda não foi confirmada pelo Congresso, porque Tillerson demorou a impô-la aos partidários da linha-dura da Casa Branca. Fica, então, a pergunta: diplomata e favorável a negociações, ela vai se entender com Mike Pompeo, considerado um "falcão"?

Ao mesmo tempo, o representante especial para a política norte-coreana Joseph Yun, um dos poucos "canais de comunicação" entre Washington e Pyongyang, acaba de se aposentar e não foi substituído.

Os Estados Unidos tampouco têm um embaixador na Coreia do Sul, aliado-chave e artífice do giro diplomático com o Norte.

Há tempos considerado para o cargo, o acadêmico e diplomata Victor Cha foi recentemente descartado, após ter criticado a eventualidade - prevista, segundo ele, por alguns na Casa Branca - de um ataque preventivo seletivo para persuadir Kim Jong-un a renunciar às armas atômicas.

"Atualmente, no Departamento de Estado, são poucas as pessoas com a experiência necessária para negociar com o Norte", considerou Roy.

"Nos Estados Unidos, tem muita gente capaz de participar de um processo de negociação, mas essas pessoas não estão no governo. Isso depende da maneira como se constitui a equipe" ao redor do presidente, acrescentou o especialista em Ásia.

Trump, por sua vez, parece não se preocupar muito com os problemas de Recursos Humanos da diplomacia americana. "Eu sou o único que importa", respondeu há meses, em entrevista à Fox, ao ser questionado sobre o assunto.

Para Stapleton Roy, preocupa, contudo, que o presidente "tenha aceitado participar da reunião antes de fixar os objetivos" e que ele vá para o encontro com Kim "com a reputação de não estar adequadamente preparado sobre os temas", com os quais deve lidar.

"Deve, de forma inequívoca, mostrar a todo mundo e aos Estados Unidos que ele se prepara seriamente para essa cúpula", afirmou, fazendo um apelo ao presidente para que incorpore representantes do Partido Democrata, em um esforço "bipartidário".