Milhares de civis fogem de Ghuta e de Afrin, na Síria

Milhares de civis fugiram nesta quinta-feira do reduto rebelde de Ghuta Oriental, perto de Damasco, onde o regime sírio conseguiu retomar uma cidade-chave, Hammuriyé, em sua ofensiva mortal lançada há um mês.

Ao mesmo tempo, outro êxodo acontecia no noroeste da Síria, onde 30 mil civis também fugiram desde quarta-feira dos bombardeios turcos na cidade de Afrin, reduto dos combatentes curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG).

Sete anos desde o início do trágico conflito sírio, o regime de Bashar al-Assad, apoiado por seu aliado russo, parece mais do que nunca determinado a recuperar todo o território - já conseguiu mais da metade.

Iniciada em 15 de março de 2011 com a repressão das manifestações pró-democracia, a guerra na Síria fez mais de 350 mil mortos e tornou-se mais complexa ao longo dos anos, com o envolvimento de potências estrangeiras. 

Em 18 de fevereiro, o regime lançou uma ofensiva aérea e terrestre contra o encrave rebelde de Ghuta Oriental, última fortaleza insurgente perto da capital. Depois de mais de três semanas de bombardeios, recuperou o controle de mais de 70% do reduto. 

Neste período, cerca de 1.250 civis, incluindo mais de 250 crianças, foram mortos, enquanto mais dos 4.800 ficaram feridos, de acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

No encrave cercado desde 2013, mais de 12.000 civis conseguiram fugir nesta quinta-feira de Hammuriyé e de outras localidades do sul, segundo o OSDH.

Correspondentes da AFP confirmaram que milhares de pessoas fugiam a pé, em carros ou motos, através do corredor aberto pelo regime. "Hammuriyé está quase vazia", indicou um deles.

- 'Nós os venceremos' -

Mais tarde, o OSDH indicou que o Exército sírio, que entrou em Hammuriyé na noite de quarta-feira, conseguiu assumir o controle de toda a cidade "após a retirada dos rebeldes" do grupo Faylaq al-Rahman.

Ao mesmo tempo, o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, advertiu que Moscou continuará a apoiar as forças de Damasco em sua ofensiva em Ghuta: "Continuaremos a lutar contra os terroristas, vamos vencê-los".

Quarta-feira à noite, a cidade de Hammuriyé foi palco de bombardeios violentos, de acordo com um correspondente da AFP.

"Os feridos estão nas estradas, não podemos transferi-los. Os aviões de caça atacam tudo o que se move", relatou o médico Isma'il al-Khatib.

Nesta quinta, um correspondente da AFP constatou a extensão dos danos: edifícios completamente destruídos, escombros bloqueando as ruas.

- Fuga de Afrin -

No setor norte do reduto rebelde, onde está localizada a grande cidade de Duma, controlada pelo grupo rebelde Jaïch al-Islam, a "situação se estabilizou consideravelmente", indicou o Exército russo na quarta-feira.

Enquanto dezenas de pessoas que necessitavam de tratamento médico foram evacuadas na terça e quarta-feira, um novo comboio de ajuda alimentar foi capaz de entrar em Duma nesta quinta-feira através da passagem de Wafidine, informou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

O presidente do CICV, Peter Maurer, estava no comboio, de acordo com a mesma fonte.

"Há três questões cruciais a melhorar: o acesso à ajuda humanitária, a proteção dos civis e as condições de tratamento dos detidos", clamou Maurer, no momento em que o conflito sírio entra em seu oitavo ano.

"Por quanto tempo as potências por trás desses combates vão permitir que essa situação se arrastre?", questionou, citado em um comunicado.

Em uma Síria em ruínas e fragmentada, a guerra continua em outra frente, no noroeste, onde a Turquia conduz desde 20 de janeiro, com a ajuda de rebeldes sírios, uma ofensiva contra o encrave curdo de Afrin, perto de sua fronteira.

Como em Ghuta, milhares de civis - mais de 30.000 civis, de acordo com o OSDH - fugiram nas últimas 24 horas dos bombardeios turcos na cidade de Afrin, capital do encrave de mesmo nome.

De acordo com um correspondente da AFP na cidade, muitas famílias, incluindo pessoas idosas e crianças, deixaram a localidade em carros, alguns carregando colchões e cobertores.

Os moradores da cidade cercada faziam filas na padarias e compravam água.

A cidade sofre uma escassez de água, já que as forças turcas tomaram uma barragem nas últimas semanas.

Os civis que fugiram encontraram refúgio nas localidades de Nobol e Zahra, sob o controle do regime de Assad.

A Turquia, por sua vez, reafirmou que a cidade de Afrin seria "muito em breve limpada" das YPG, combatentes curdos da Síria aliados dos Estados Unidos na luta contra os jihadistas, mas que Ancara considera como "terroristas".