Corte Suprema do Peru analisa pedido para extraditar Toledo dos EUA

A Corte Suprema do Peru deu início, nesta segunda-feira (4), à análise do pedido de extradição do ex-presidente Alejandro Toledo, que mora nos Estados Unidos, acusado de ter recebido propinas que superam os 20 milhões de dólares da empreiteira Odebrecht.

O tribunal máximo anunciará na próxima semana sua decisão, em mais um capítulo de um escândalo que afetou outros três mandatários peruanos, inclusive o atual presidente, Pedro Pablo Kuczynski.

"Há uma série de elementos de suporte inevitável" que justificam este pedido, disse o procurador Abel Salazar, ao solicitar à Corte que "declare procedente a extradição do senhor Alejandro Toledo Manrique", que governou o Peru de 2001 a 2006.

O pedido de extradição foi feito em 19 de fevereiro pelo juiz Richard Concepción Carhuancho, que também manteve em prisão preventiva o ex-presidente Ollanta Humala (2011-2016) pela suposta doação de 3 milhões de dólares Odebrecht à sua campanha eleitoral.

Toledo, de 71 anos, é acusado de "tráfico de influência, conluio e lavagem de dinheiro", pela suposta propina que a Odebrecht afirma ter pago em troca de vencer a licitação da construção de uma rodovia na Amazônia ligando Peru e Brasil.

Toledo e seu então contraparte brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, inauguraram a estrada em 2006.

A empresa brasileira, que colabora com a Justiça, diz ter pago 29 milhões de dólares no Peru entre 2005 e 2014, ao longo três governos, mas a defesa de Toledo afirma que o ex-presidente é inocente.

"Até hoje, a Justiça fechou as portas" para Toledo, disse na audiência seu advogado, Roberto Su.

"Ouvi o relato do representante do Ministério Público, que não tem argumentos jurídicos para sustentar este processo de extradição, porque o que foi relatado é um drama, é uma hipótese legal", acrescentou Su. 

A audiência foi presidida pelo juiz César San Martín, o mesmo que em 2009 condenou o ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) a 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade.

Ao fim da audiência, que durou uma hora e meia, San Martín anunciou que a Corte Suprema "expedirá a resolução de extradição na terça-feira, 13, às 13h00" locais (15h00 de Brasília).

- Nasceu pobre, estudou nos EUA -

No ano de 2000, Toledo liderou a oposição contra Fujimori, que renunciou do exterior em meio a um escândalo de corrupção, e foi eleito presidente em maio de 2001. 

Nascido em 28 de março de 1946 em uma região de extrema pobreza, a localidade norte-andina de Cabana, região de Ancash, a quase 4 mil metros de altitude, Toledo foi pastor de ovelhas e ajudou sua mãe no nascimento de pelo menos três de seus 15 irmãos. 

Ainda criança, Toledo se mudou para a costa e passou a viver em Chimbote, onde trabalhou como vendedor de balas e jornais e engraxate.

Das escolas públicas peruanas, ele saltou para a Universidade de Stanford, na Califórnia, onde se formou em 1970 e fez um doutorado em Economia e foi trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento e no Banco Mundial. 

Na semana passada, um tribunal peruano ordenou o congelamento das contas bancárias de Toledo no Peru pelo caso Odebrecht. 

Além disso, o ex-diretor da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, afirmou na semana passada que na campanha de 2011 entregou milhões de dólares entre os então candidatos Toledo, Kuczynski, Humala (que ganhou as eleições) e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente.

Segundo Barata, a Odebrecht deu 700 mil dólares a Toledo nesta campanha, algo negado pelos advogados do ex-presidente.

"Rejeitamos de forma taxativa as falsas afirmações do cidadão Jorge Barata a respeito de uma suposta entrega de 700 mil dólares", escreveu o advogado Heriberto Benítez em um comunicado publicado na página do Facebook de Toledo.

Os demais líderes políticos peruanos também negam as afirmações de Barata.