Como erro de cálculo de Washington resultou na aproximação de Coreias

Nos primeiros dias de 2018 ocorreu algo inesperado: as relações entre Seul e Pyongyang entraram em uma nova fase. Desta vez não se trata nem de mais uma ameaça ou aumento da tensão: o Norte e Sul recomeçaram um diálogo oficial.

Gevorg Mirzayan, professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Finanças do Governo da Rússia, analisa o assunto em seu artigo para a Sputnik.

Em 9 de janeiro, as partes envolvidas concordaram na realização de negociações intergovernamentais, em Panmunjeom. O objetivo de tal iniciativa são as medidas de melhoramento nas relações bilaterais e condições para Pyongyang poder participar dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang. Na Coreia do Sul esperam muito que o ar amigável estabelecido nos eventos esportivos possa intensificar o diálogo intercoreano.

O Sul, desde a eleição de Moon Jae-in (que ainda na campanha eleitoral declarou sua aspiração por um diálogo com o vizinho) não escondia seu interesse em tentar diminuir a tensão a que chegaram os dois países nos últimos anos, a surpresa foi a declaração de Kim Jong-un feita na mensagem de Ano Novo ao povo norte-coreano.

Ele, como sempre, afirmou que seu país continuará desenvolvendo programa nuclear, mencionando a existência do botão nuclear. Mas o que surpreendeu a todos, foram as palavras sobre a prontidão para começar a dialogar com o Sul e enviar a delegação para os Jogos Olímpicos. As declarações logo foram consolidadas por ações: em 3 de janeiro Kim Jong-un ordenou restabelecer o canal de comunicação intercoreano.

É obvio que os EUA logo começaram a dizer que a disposição para a paz de Kim é o mérito de Donald Trump. "Alguém realmente acha que as negociações e o diálogo entre a Coreia do Norte e a do Sul ocorreriam neste momento se eu não tivesse sido firme, forte e disposto a usar nosso 'poder' total contra o Norte?", escreveu o líder norte-americano em seu Twitter.

"Por mais estranho que pareça, ele [Trump] tem razão. Mas não no sentido em que ele e os EUA gostariam", aponta Mirzayan.

A retórica agressiva de Trump assustou não tanto o Norte como o Sul, explicou analista. Os aliados dos EUA compreenderam que a situação atingiu o ponto que nunca antes alcançou. Uma possível guerra, que pode começar por causa dos EUA, ameaça diretamente o povo sul-coreano que será o primeiro a ser afetado pelas armas de Pyongyang.

Foi por isso que a política de Seul quanto à Coreia do Norte começou a divergir com a de Washington. Apesar das declarações de que a Coreia do Sul é um fantoche nas mãos dos EUA, ultimamente as autoridades sul-coreanas se apresentaram prontas para agir em seus interesses e não contar com Trump, que simplesmente os assustam com sua posição agressiva.

No que diz respeito às questões de segurança durante os Jogos Olímpicos, está bem claro quem era o mais interessado na resolução pacífica, afirma Mirzayan. Depois das negociações entre o presidente Moon Jae-in e Donald Trump, foi deliberado suspender as manobras conjuntas de Seul e Washington para não provocar Kim Jong-un e garantir a segurança das Olimpíadas. É obvio que o iniciador desta decisão foi parte sul-coreana, pois até o último momento tanto Trump, como o chefe do Pentágono James Mattis, afirmaram que não têm necessidades de parar os treinamentos.

Assim, resulta que venceu Kim e não Trump. Ele conseguiu provocar uma cisão entre Seul e Washington e começar as negociações que se baseiam nos assuntos socioeconômicos (a posição oficial dos EUA era negociar apenas a questão de desnuclearização total da Coreia do Norte).

No entanto, os EUA não reconhecem sua derrota neste assunto e não pretende tirar conclusões desta situação, opina analista.

"Aparentemente, Trump continuará se comportando assim, mesmo vendo a debilidade da sua posição e isolação dos EUA na questão norte-coreana que está aumentando, ele não pretende mudar a retórica quanto à Coreia do Norte", destacou cientista político.

Muito provavelmente, tudo pode ser explicado pelo motivo de Trump apenas precisar de um inimigo externo, ou por que ele não é capaz de se submeter à existência de um país tão pequeno que atreve ameaçar os EUA. Afinal de contas, Washington pode ter um jeito muito peculiar para sair desta situação e este jeito não pressupõe na mudança da retórica: minar as negociações intercoreanas para que o Sul fique forçado a voltar a considerar as medidas mais agressivas, opinou Mirzayan.

"Não há dúvida de que Pyongyang 'lê' o jogo americano e é pouco provável que sejam sujeitos à provocação. O que quer que digam no Departamento de Estado, Kim Jong-un não é louco e não quer um apocalipse nuclear", resumiu cientista político.

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