Macron e o desafio de implementar reformas e conquistar a população

Especialista comenta o cenário na França, após uma eleição com recorde de abstenção

As grandes reformas defendidas por Emmanuel Macron serão os principais fatores que definirão a trajetória do novo presidente da França: É o que afirma o professor de Relações Internacionais da Uerj, Marcelo Mello Valença. De acordo com o professor, o sucesso - ou fracasso - de Macron vai depender do tom das reformas trabalhistas e previdenciárias que ele pretende implementar, e de como elas serão recebidas pela oposição e pela população da segunda maior economia da União Europeia.

Eleito com 66,06% dos votos no segundo turno das eleições na França, o candidato independente e centrista Emmanuel Macron venceu a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, que recebeu 33,94% de apoio nas urnas, no domingo (7). No entanto, o que mais chamou a atenção no pleito foi o grande número de abstenções: 25,44% dos inscritos não foram votar. Um nível recorde no país.

Na opinião de Marcelo Valença, o fato de mais de um quarto do eleitorado não ter comparecido às urnas é mais um desdobramento de uma crise de representatividade mundial. Macron se tornou presidente por ter menos rejeição do que a adversária, e não por uma preferência significativa do eleitor. “Nem todo mundo que votou no Macron queria ele, só não queriam o extremismo defendido por Le Pen”, afirmou.

>> De cortes ao euro: o programa econômico de Macron

Nesta segunda (8), um dia após ter sido eleito, Macron foi alvo de protestos da extrema-esquerda, durante o cumprimento de seu primeiro compromisso oficial, no Arco do Triunfo, em Paris. O grupo, autodenominado "Frente Social", se opõe às reformas propostas por Macron, que pretende realizá-las por decreto.

Para o professor, Macron pode esperar resistência da população às suas propostas. Mas segundo ele, “vai depender muito do tom das reformas que ele pretende pautar. Se ele realmente cumprir o que prometeu, de realizar reformas significativas que não resultem na perda de direitos, ele pode ter sucesso”, afirmou. 

Valença detalhou os pontos nos quais o novo presidente poderá ter mais dificuldades, todos relacionados às reformas. “Ele vai encontrar obstáculos no histórico francês de manifestações contra reformas trabalhistas e previdenciárias. Protestos que podem ser ampliados pela grandiosidade das medidas, e também pelo próprio viés que essas mudanças sugerem, que sempre acabam prejudicando alguma parcela da população.”

Macron veio do mercado financeiro e foi ministro da Economia da França. Para o professor, o presidente eleito deve buscar se alinhar às medidas econômicas estabelecidas na União Europeia. “Em um discurso, ele afirmou que a França deve diminuir os gastos públicos. Os gastos do país estão acima da média dos outros países da UE. As medidas de austeridade de Macron devem ser uma mistura entre redução de servidores públicos e de gastos do estado. Sempre com a imagem de fundo que ele defende, de ‘mudar sem perder direitos’”, explicou.

Mas a reaproximação da França com o bloco não se daria apenas do ponto de vista econômico. “Acho que a vitória dele dá uma sobrevida às relações institucionais, econômicas e políticas da França com a União Europeia. Ele tem essa postura de continuidade. Só essa expectativa dele de reduzir o tamanho do estado é uma forma de se alinhar ao bloco europeu”, disse, acrescentando: “Na dimensão social, a derrota da França xenófoba defendida por Le Pen também revela uma aproximação com a UE.”

Sobre o enfrentamento às atividades terroristas no país, o professor lembrou que Macron prometeu um “combate empenhado” contra forças como o Estado Islâmico, além de manifestar uma posição favorável aos imigrantes. “Em seu antagonismo à Le Pen, que será tudo menos uma oposição fraca, ele tende a assumir um discurso mais intenso contra a xenofobia no decorrer do seu mandato”. 

* do projeto de estágio do JB