Franceses vão às urnas neste domingo para escolher entre Macron e Le Pen

A França realiza neste domingo (7) o segundo turno da eleição presidencial, disputada pela candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, e o de centro Emmanuel Macron. Na sexta-feira (5), o candidato do partido Em Movimento! já disparou na frente da aposta do Frente Nacional, com 62% dos eleitores contra 38% de Le Pen, de acordo com pesquisa da emissora pública BFM TV, uma alta de três pontos percentuais. 

Na sondagem realizada pela Ipsos Sopra Steria, feita a pedido da Radio France e France Television, o ex-ministro da Economia aparece com 61,5% e Le Pen com 38,5% das intenções de votos. O mesmo levantamento projeta a participação de 76% da população no segundo turno, que acontecerá em 7 de maio. Nos 14 dias de intervalo entre o primeiro e o segundo turno, o ex-ministro das Finanças manteve uma vantagem de pelo menos 20 pontos sobre a adversária.

Para o diretor do instituto Elabe,Yves-Marie Cann, o avanço de Macron de deve, principalmente, ao crescente apoio dos eleitores da esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, que decidiram votar em Macron. De acordo com ele, 54% das pessoas que votaram em Mélenchon expressam intenção de votar a favor do candidato de centro. 

De acordo com o jornal belga Le Soir, Macron já lidera a apuração nos territórios ultramarinos e no exterior, que costumam pender para a esquerda. As urnas na França metropolitana ficam abertas até as 20h (15h em Brasília).    

Dissidente socialista, Macron foi ministro das Finanças do presidente François Hollande entre 2014 e 2016, mas rompeu com o governo por discordar dos "dogmas da esquerda" e para lançar sua corrida ao Palácio do Eliseu. Ele se apresenta como uma espécie de terceira via liberal e europeísta e conseguiu cativar o eleitorado com um discurso carismático.

>> Presença em eleições na França registra leve queda

Aos 39 anos, Macron pleiteia se tornar o mais jovem presidente da história da França e já foi chamado por seus adversários de "Justin Bieber" e "Beppe Grillo vestido de Giorgio Armani", em referência ao líder antissistema italiano.

Com um movimento criado há apenas um ano, o Em Marcha!, ele assumiu a liderança nas pesquisas graças à derrocada do Partido Socialista e aos problemas judiciais do conservador François Fillon, arrancando votos nas duas frentes.

Mais experiente, Le Pen, 48 anos, também encampa o discurso contra o establishment e os partidos tradicionais, apesar de pertencer a uma legenda existente desde 1972. Seu pai, Jean-Marie Le Pen, chegou a disputar o segundo turno em 2002, mas foi massacrado por Jacques Chirac (82% a 18%) e, anos mais tarde, abriria espaço para sua filha. Os dois romperam politicamente em 2015, em meio à tentativa da candidata de modernizar a imagem da FN e se afastar do discurso antissemita e negacionista de seu genitor.

A ultranacionalista tem como principais propostas retirar a França da zona do euro, retornando ao franco, e convocar um referendo sobre a presença do país na União Europeia. Seu programa econômico é intervencionista e prevê aumento de impostos sobre a contratação de estrangeiros, além da retomada do controle sobre as fronteiras francesas. Le Pen ainda quer bloquear totalmente a imigração clandestina e limitar a entrada de imigrantes legais em 10 mil por ano.

Se ela vencer, tornará a primeira mulher presidente da França, cargo com uma concentração de poderes sem parâmetro na maior parte das democracias do mundo. Em um continente onde a tradição dominante é a do parlamentarismo, o país adota um sistema político um pouco diferente, um semipresidencialismo que dá amplas atribuições ao chefe de Estado, mas mantém a figura do primeiro-ministro para lidar com o dia a dia do governo.

O partido de Le Pen é profundamente marcado pelas declarações xenófobas do pai dela, Jean-Marie, nas últimas décadas. No final de abril, a candidata deixou o comando da legenda. Isto em um momento em que a Europa vê aumentar as manifestações racistas e anti-imigratórias, devido à crise migratória da Síria, mergulhada em uma guerra que o próprio próprio continente europeu tem participação, e ainda os ataques e ameaças do Estado Islâmico, que lançou um apelo, inclusive, para que seus simpatizantes assassinassem os dois candidatos e atacarem os locais de voto.

>> Estado Islâmico pede assassinato de Macron e Le Pen

>> Crise migratória evidencia contradições e erros históricos da Europa

A França é o país da Europa que mais sofreu com ataques jihadistas nos últimos anos. A França é um dos membros mais ativos da coalizão internacional que combate o Estado Islâmico no Oriente Médio e abriga uma importante comunidade muçulmana

Em 20 de abril, três dias antes do primeiro turno, um atentado reivindicado pelo EI deixou um policial morto na avenida Champs-Élysées, em Paris, mas a votação transcorreu sem problemas, apesar do clima de tensão e preocupação. Pouco antes, a polícia prendeu dois suspeitos de planejar atentados nas eleições.

O movimento anti-Frente Nacional e ativistas do Greenpeace fizeram um protesto contra Le Pen, a dois dias do segundo turno. Escalaram a Torre Eiffel, em Paris, para pendurar uma faixa com a frase "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" e, logo abaixo, uma hashtag com a palavra "Resista", mensagem contra a candidata e seu partido.    

"Queríamos dizer que somos contra a ascensão do nacionalismo e do autoritarismo na França e em outros países", disse Jean-François Julliard, diretor geral do Greenpeace França, à rádio pública Francinfo.

Debate

No último debate presidencial na França entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, o candidato do Em Movimento foi considerado o mais convincente por 63% dos telespectadores em uma pesquisa feita pela emissora pública BFM TV. Além disso, os 1.314 entrevistados destacaram que ele foi "mais honesto", mais "alinhado" com o pensamento dos eleitores e tem "os melhores planos".

Atacado por ter feito parte do governo de Hollande, Macron disse após o debate que "precisou se defender" e esclarecer as "mentiras" que o partido de Le Pen, a Frente Nacional, publica nas redes sociais.

Entre algumas das "mentiras", segundo o candidato de centro, está a de que ele teria contas escondidas ou empresas offshores nas Bahamas. A Procuradoria de Paris abriu uma investigação contra Le Pen, após denúncia apresentada por seu rival. A denúncia diz que ela "usou uma notícia falsa" para "orientar os votos presidenciais". A candidata, por sua vez, disse que "não tem provas", mas que "não quis fazer uma insinuação".

Plágio

Na última semana, a candidata ultranacionalista Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), também foi acusada de plagiar um discurso do ex-concorrente François Fillonm durante celebrações do Dia do Trabalhador em Villepinte, perto de Paris. De acordo com a imprensa francesa, ela usou trechos de um discurso feito em 15 de abril, e repetiu mais de dois minutos das falas do adversário, derrotado no primeiro turno das eleições. 

Primeiro turno

Macron terminou o primeiro turno, no dia 23 de abril, em primeiro lugar, com 24,01%, e Le Pen com 21,30%. 

Das 10 maiores cidades, a ultranacionalista teve como melhores resultados a segunda colocação em Marselha (23,66%) e Nice (25,28%). Em três delas, incluindo Estrasburgo, uma das sedes do Parlamento Europeu (12,17%), Montpellier (13,32%) e Lille (13,83%), Le Pen ficou na quarta posição. 

Em outras quatro, inclusive a capital Paris (4,99%), Toulouse (9,37%), Nantes (7,12%) e Bordeaux (7,39%), a líder da Frente Nacional perdeu até do socialista Benoît Hamon e terminou o primeiro turno em quinto lugar.

Já Macron, que disputa sua primeira eleição, venceu em 7,1 mil cidades, pouco mais de um terço das conquistadas por Le Pen. Seus territórios se concentram sobretudo na metade ocidental da França e nas grandes cidades e seus arredores. Entre as 10 principais metrópoles, o ex-ministro das Finanças faturou cinco: Paris (34,83%), Lyon (30,31%), Nantes (30,83%), Estrasburgo (27,76%) e Bordeaux (31,26%). 

Em outras três, ficou na vice-liderança: Toulouse (27,27%), Montpellier (24,69%) e Lille (25,02%), sempre atrás do esquerdista Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa). Seus piores resultados foram as terceiras colocações em Marselha (20,44%) e Nice (20,52%), justamente onde Le Pen teve seus melhores desempenhos.

>> Tiroteio em Paris deixa França em alerta antes das eleições

>> Polícia francesa ordena busca de três suspeitos de planejar ataques terroristas

Com agência Ansa