'El País': A morte de Fidel Castro, o último revolucionário

Editorial diz líder durante 47 anos, exerceu o poder absoluto em Cuba

O jornal espanhol El País publicou neste sábado 926) um longo texto sobre Fidel castro, falecido aos 90 anos na sexta-feira 925), em Havana.

O editorial diz que é considerado um líder autoritário ou simplesmente um tirano para meia humanidade, lenda revolucionária e flagelo do “imperialismo ianque” para os mais despossuídos e para a esquerda militante, Fidel Castro era o último sobrevivente da Guerra Fria e certamente o ator político do século XX que mais manchetes de jornal acumulou ao longo de seus 47 anos de domínio absoluto em Cuba, um poder caudilhista que começou no dia 1º. de janeiro de 1959, após derrotar pelas armas o regime de Batista. 

El País descreve que Nem mesmo no ocaso de sua existência, depois que uma doença o afastou do Governo em 2006, sua influência desapareceu da ilha que sempre foi pequena demais para ele, pois Fidel a concebia como uma peça a mais no grande jogo da revolução universal, seu verdadeiro objetivo na vida.

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O diário espanhol conta que sua biografia começa no dia 13 de agosto de 1926 no pequeno povoado de Birán, perto de Holguín, na antiga província cubana do Oriente. Foi o terceiro dos sete filhos tidos fora do casamento por Ángel Castro, um rude fazendeiro galego que chegou a Cuba como soldado de reposição no final da guerra de independência, e a cubana Lina Ruz, que trabalhava como empregada na propriedade familiar. Até se divorciar da sua primeira esposa e se casar com Lina, no início dos anos 40, Ángel não deu aos filhos o sobrenome Castro, razão pela qual até o final da adolescência Fidel carregou o estigma de ser filho bastardo. Isso não o impediu de se destacar rapidamente como um aluno arrojado e brilhante nos internatos jesuítas pelos quais passou, primeiro em Santiago de Cuba e depois em Havana, uma formação que se incrustou no núcleo duro do seu caráter.

Em 1945, começou a estudar Direito na Universidade de Havana, onde o ambiente de pistolas e efervescência política o levou a se juntar a rocambolescas aventuras revolucionárias, como a tentativa de expedição armada para derrotar o ditador dominicano Rafael Leónidas Trujillo, em 1947. Um ano depois, sendo já um proeminente líder estudantil, participou na revolta do Bogotaço, desencadeada pelo assassinato do líder liberal colombiano Jorge Eliezer Gaitán – foi sua primeira experiência de insurreição popular. Nesse mesmo ano de 1948, contraiu matrimônio com Mirta Díaz-Balart, estudante de Filosofia de uma família endinheirada, com quem teve seu primeiro filho, Fidelito.

Segundo o jornalista norte-americano Tad Szulc, autor da biografia mais rigorosa já escrita sobre Fidel, desde a sua juventude ele acreditou que havia “líderes destinados a desempenhar papéis cruciais na vida dos homens, e que ele era um deles”. Essa convicção, unida à sua intuição política e grande poder de persuasão, assim como sua audácia e capacidade de “transformar os reveses em vitórias”, o fizeram se destacar em um momento muito especial da história cubana, quando a corrupção generalizada e o descrédito do Governo de Carlos Prío Socarrás eram terreno fértil para a luta política.

Depois de se formar advogado, em 1950, e abrir um pequeno escritório, entrou integralmente para a política com o Partido Ortodoxo, que o designou candidato ao Congresso nas eleições que deveriam ser realizadas em junho de 1952. Contudo, no dia 10 de março desse ano, a história de Fidel Castro e de Cuba mudou para sempre, com o golpe de Estado encabeçado pelo ex-sargento Fulgencio Batista.

Por ter considerado fraca sua reação ao golpe, Fidel rompeu relações com a Ortodoxia e planejou uma ação armada que deveria provocar uma insurreição popular. Mas a tentativa de tomar de assalto o quartel Moncada, em Santiago de Cuba, no dia 26 de julho de 1953, acabou em fracasso e resultou na morte de 67 dos 135 integrantes do comando revolucionário, a maioria deles assassinada depois dos combates. Os rebeldes foram julgados num processo muito ruidoso, no qual Fidel assumiu sua própria defesa: com a célebre alegação conhecida como A História Me Absolverá, ele expôs seu programa político e revolucionário, que incluía em suas reivindicações a restauração da Constituição de 1940.

Fidel foi condenado a 15 anos de prisão, e seu irmão Raúl, a 13, mas os moncadistas foram anistiados em 1955, e Fidel partiu para o exílio com um grupo de fiéis seguidores. No México, onde conheceu Che Guevara, preparou o desembarque do iate Granma, que ocorreu a 2 de dezembro de 1956, na costa oriental de Cuba – uma ação que marcou o início de dois anos de luta guerrilheira na serra Maestra e que finalmente resultou na fuga de Batista, em 1º. de janeiro de 1959.

El País destaca que nenhum historiador pode assegurar que Fidel era marxista quando estava nas montanhas da serra Maestra. Não há um só documento que comprove isso. Mas existem, sim, provas de que seu confronto com os Estados Unidos vem de longe. Na carta que enviou à sua colaboradora Celia Sánchez no dia 5 de junho, logo depois de aviões de Batista bombardearem a casa de um camponês com projéteis norte-americanos, ele diz: “Ao ver os mísseis que jogaram na casa de Mario, jurei que os americanos vão pagar bem caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim uma guerra muito mais longa e grande: a guerra que vou lançar contra eles. Estou percebendo que esse será meu verdadeiro destino”. Para muitos analistas, essa famosa carta é crucial para compreender a psicologia e o modo de agir de Castro a partir daí.