'The Guardian': Mentiras, fábulas e irresponsabilidade são a face da democracia

Reportagem critica cenário político atual no mundo

E se a democracia não funcionar? E se nunca funcionou? Como será? E se o governo do povo, pelo povo, para o povo for um conto de fadas? E se ele funcionar apenas como um mito para justificar atitudes mentirosas de grandes charlatões? Existem inúmeras razões para levantar estas questões.

O jornal britônico The Guardian traz em sua edição desta quarta-feira (5) uma análise sobre a política global. 

As mentiras, exageros e irresponsabilidades em ambos os lados do debate sobre o Brexit; as fábulas xenófobas que inflamaram o referendo húngaro; a capacidade de Donald Trump em transformar quase tudo em escândalo; a eleição de Rodrigo Duterte nas Filipinas, que se compara alegremente a Hitler. A dúvida é se estes seriam casos isolados ou revelam um problema sistêmico, questiona o Guardian.

> > The Guardian Lies, fearmongering and fables: that’s our democracy

Democracia para realistas, publicado no início deste ano pelos professores de ciências sociais Christopher Achen e Larry Bartels, argumenta que a "teoria popular da democracia" - a ideia de que os cidadãos tomam decisões políticas coerentes e inteligíveis, na qual os governos, não tem relação com ele realmente funciona. Ou poderia funcionar, observa o jornal britânico.

Os eleitores, eles afirmam, não podem viver de acordo com essas expectativas. A maioria está muito ocupada com seus empregos, famílias e seus próprios problemas. Quando temos tempo livre, muitos de nós prefere não gastar fazendo reivindicações sobre as implicações fiscais de flexibilização quantitativa. Mesmo quando fazem, não se comportam como a teoria sugere, diz o Guardian.

De acordo com o texto a nossa teoria popular da democracia baseia-se numa noção iluminista de escolha racional. Isto propõe tomar decisões políticas buscando informações, pesando as evidências e usando para escolher boas políticas, na tentativa de eleger um governo que defenda essas políticas. Ao fazê-lo, nós competimos com outros eleitores racionais, e procuramos chegar a um consenso através de um debate fundamentado.

Na realidade, a pesquisa resumida por Achen e Bartels sugere que a maioria das pessoas não possui quase nenhuma informação útil sobre as políticas e as suas implicações, têm pouco desejo de melhorar o seu estado de conhecimento, e uma profunda aversão ao desacordo político, revela o The Guardian. 

Baseamos nossas decisões políticas sobre quem somos e não no que pensamos, acrescenta o Guardian. Em outras palavras, agimos politicamente - não como seres individuais, racionais, mas como membros de grupos sociais, expressando uma identidade social. Nós procuramos os partidos políticos que parecem corresponder melhor à nossa cultura, com pouca atenção ao fato de suas políticas atenderem aos nossos interesses. Nós permanecemos leais a partidos políticos por muito tempo depois de terem deixado de nos servir, observa o The Guardian.

Naturalmente, as mudanças acontecem, por vezes, como resultado de circunstâncias extremas, às vezes porque um partido define uma identidade cultural mais interessante. Mas raramente envolvem uma avaliação racional da política, analisa o noticiário.

Mesmo a noção menos ambiciosa da democracia - que é um meio pelo qual as pessoas punem ou recompensam governos - acaba sendo desvinculado da realidade. Nos lembramos apenas dos últimos meses do desempenho de um governo e atribuímos culpas sem a menor coerência, conclui o The Guardian.