Guerra na Colômbia durou muito e deixou sequelas, diz especialista em direito internacional

Colombianos reprovaram acordo de paz com as Farc em plebiscito neste domingo

O acordo de paz do governo da Colômbia com as Farc, derrotado em plebiscito neste domingo (3), enfrentou críticas de opositores devido a questões como a ausência de penas rígidas contra guerrilheiros e a inserção deles na política nacional, previstos no documento. Para o professor Antônio Celso Alves Pereira, a Colômbia precisa "virar a página", mas isto não seria uma tarefa tão fácil. 

"A guerra durou muito tempo e deixou muitas sequelas. Centenas de pessoas foram vitimadas pela guerrilha, pessoas que não só foram sequestradas como foram mortas, ficaram deficientes, tudo isso em decorrência da guerra", comenta o professor de Direito internacional da Uerj e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Internacional.

A Colômbia enfrenta uma guerra com as Farc há 52 anos. Contrariando as pesquisas de intenção de voto e toda a publicidade em torno do acordo de paz, inclusive com a participação de figuras internacionais importantes, o "não" obteve 50,23% dos votos, contra 49,77% do "sim", uma diferença de 60 mil votos.

"É muito difícil, para muita gente, perdoar de imediato, pensando no sofrimento que muitas pessoas ainda passam." Da maneira que foi formulado, acredita o professor, o pacto acabou sendo visto como uma anistia. 

Alves Pereira defende que uma aprovação do acordo de paz seria o melhor para a Colômbia. Algumas das regiões mais atingidas por conflitos, inclusive, registraram a vitória do "sim", pessoas que, define, veem a situação com outro olhar, mirando o futuro. 

"Estou olhando para o futuro, [mas] muitas pessoas não conseguem olhar para o futuro, pessoas que perderam familiares, muitos estão ainda realmente sentindo profundamente [os efeitos dos conflitos]", ressalta Alves Pereira.

Ele também lembra que o ex-presidente Álvaro Uribe é uma liderança importante no país, em torno da qual se construiu um movimento de rejeição ao acordo. 

O governo colombiano não precisava submeter o acordo de paz a um plebiscito, mas decidiu convocar a consulta popular para dar legitimidade política à decisão. Após a derrota, o presidente Juan Manuel Santos disse que "o cessar-fogo e o fim das hostilidades bilaterais e definitivas continua vigente, e assim continuará". "Ouço os que disseram não e ouço os que disseram sim."

As Farc também têm reforçado compromisso com a paz e o cessar-fogo. Vinte quatro horas antes da votação, eles tinham anunciado que iriam declarar “recursos monetários e não monetários” para indenização das vítimas. 

"As Farc lamentam profundamente que o poder destrutivo dos que celebram o ódio e o rancor tenha sido incutido na opinião da população colombiana. Com o resultado, sabemos que o nosso desafio como movimento político é maior e nos requer mais força para construir a paz estável e duradoura", disse o líder Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko.

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